quarta-feira, 3 de setembro de 2008

A morte do meu bonsai


Deus, matei meu bonsai, um bonsai de 22 ANOS!
Era um boungaville rosa, ou primavera, como tantos conhecem.
Já vinha definhando a algum tempo. Fiz várias tentativas, mas era tarde demais. Hoje constatei que não conseguiria mais reverter seu pobre destino.
Me perdoe! Acho que agora está finalmente livre!

Carta às próximas gerações da humanidade, Deus queira mais conscientes!
Remetente: Bonsai Boungaville Rosa
Endereço: Jardim do Céu

Há 22 anos nasci, me colocaram num vasinho, onde eu me sentia por vezes até protegido. Mas nasci para ser grande, então, pensei, depois me tiram desse bercinho e me colocam no jardim, onde poderei crescer e produzir muitas flores.
Lembro que crescia muito feliz, pois um japonês cuidava muito bem de mim, até o momento em que minhas raízes atingiram as paredes desse vasinho. Não me tirou dali como esperava. Pelo contrário, parecia não saber que precisava de mais espaço, embora continuasse com os cuidados de sempre.
Não tive escolha, tive que desviar as raízes para o lado, afinal precisava continuar crescendo, cumprindo o que a natureza tinha estabelecido para minha espécie.
Já sem espaço para crescer e depois de um tempo, finalmente fui retirado desse vasinho e colocado num maior, só um pouco maior, na verdade. Estranhamente cortaram parte das minhas raízes, e também podaram os meus pequeninos galhos. Mas mesmo diante de tanta agressão, fui resistindo. Todos os anos era assim, me tiravam do vaso e podavam minhas raízes e meus galhos, estes já contorcidos com arames, que chamam de educação.
Assim vinha passando todos os anos da minha vida, querendo ser grande, mas tendo que me resignar em ser pequenino, constrito em uma condição de mero objeto humano.
E apesar de pequenino, sem dignidade num espaço tão ínfimo, me sentia, por vezes, muito orgulhoso quando chegavam a primavera e o outono, porque me enchia de flores. Vejam só, tinha mais flores até do que folhas.
Um dia, quando estava todo florido, aquele japonês me levou para a loja, onde era visto por todos. Passavam, perguntavam o preço, uns íam embora, mas sempre olhavam para trás, outros diziam que voltariam, mas não voltavam. Até que chegou uma moça, toda serelepe, que ficou fascinada por mim...Estranhou o preço, mas quando o japonês falou a minha idade, ela pareceu ter entendido, então me comprou e me levou para sua casa. Parecia muito feliz!
Passei também algum tempo feliz na sua casa. Ela me colocou num lugar bastante especial de sua varanda onde eu pegava todos os dias os primeiros raios de sol. Todos os dias também ela vinha me ver e três vezes na semana colocava água, e filtrada.
Apesar do espaço minúsculo onde me obrigaram a viver, eu ía seguindo a vida. Às vezes, sentia seu olhar sobre mim, parecia muito pensativa, talvez achando a minha situação um tanto quanto absurda. Talvez sentisse pena de mim e aposto que pensou muitas vezes em me libertar, levar-me para um desses canteiros lá fora e me plantar num lugar bem legal onde eu pudesse crescer livre como minha mãe.
Quatro ou cinco anos se passaram, mas foi no último ano que as coisas ficaram realmente difíceis, ela foi cada vez mais deixando de cuidar de mim. Parecia sempre tão ocupada, mas eu não precisava tanto assim do seu tempo! Às vezes, vinha até a varanda e me olhava, e percebia que tinha se lembrado de mim. Então parecia que ía buscar água e às vezes, para meu alívio, voltava, mas outras vezes não, saía pela porta apressada, e o silêncio que ficava sempre denunciava que mais uma vez tinha me esquecido.
Nos útimos tempos, piorou, as regas foram ficando cada vez mais escassas, e eu que não estava mais conseguindo suportar, fui ficando cada vez mais fraco...Ela tentou me salvar, mas eu, não mais resistindo, morri...
Deus pediu para um anjo que me plantasse num jardim aqui no céu, e assim finalmente poderei crescer livre.
ESPERO QUE ELA NÃO QUEIRA MAIS TER BONSAIS, POIS NÃO PRECISAMOS DE ALGUÉM QUE TORNE NOSSAS VIDAS MAIS DIFÍCEIS DO QUE JÁ SÃO.

Um comentário:

didicarmo disse...

Nossa... Não sei como conseguiu escrever... Me apertou o coração no detalhe de "cortar minhas raizes", ficou parecido como cortar suas pernas... Afff, que dor no coração....