terça-feira, 29 de julho de 2008

Cabendo numa calça jeans


Nem lembro quando foi a última vez que vesti uma calça jeans. Nos últimos anos tinha engordado, e estava com sobrepeso. Emagreci um pouco, graças a Deus! Mas pensar que quase engordei novamente por causa da fase que passei nestes últimos dias!...
Queria tanto parecer atraente aos olhos do meu amor platônico! Sei que ele tem um grande senso estético e que consegue perceber a hamonia de formas com muita facilidade (então pergunto: ele é assim porque é arquiteto, ou é arquiteto porque é assim?).
Ainda não emagreci o suficiente para caber "naquela calça jeans", e estou ainda com alguns "pneus" que tiram qualquer uma do sério. Resolvi, então, experimentar a massagem, mas se não obtiver muito resultado, fatalmente terei que fazer uma lipo.
Não costumo sentir inveja de ninguém, sempre fui assim, desde pequena, mas quando vejo uma moça bem vestida no seu jeans, não consigo evitar..., nem sei lidar com esse tipo de sentimento que incomoda muito.
O sofrimento do "ainda não é dessa vez" é sempre revivido quando entro na cabine para experimentar a calça, e depois de várias tentativas, com umas dez pelo menos, saio da loja sem levar nada, envergonhada e extremamente frustrada. Acho que muitas também passam por isso...É horrível!
Vestir uma calça jeans, com salto alto , é claro, é para mim uma das maiores conquistas que pretendo alcançar, se Deus quiser, ainda este ano.
Existe toda uma cultura de significados para o jeans. Além de mostrar para o mundo que vc está de bem com a vida, ele rejuvenesse e nos deixa atraentes... Prova disso é que nunca saiu de mercado, desde quando foi criado.
O velho conhecido de 150 anos está sempre se renovando e modernizando. Quase todo mundo tem um no armário. Servindo para todas as ocasiões, ele combina com qualquer acessório.
Possui várias cores, com formatos e preços para todos os bolsos.
É de longe a indumentária mais conhecida da terra, usada por mortais, artistas, políticos, ecologistas, mocinhos e bandidos...
Compõe o figurino da humanidade desde que apareceu universalmente ainda no século XIX.
Mas se tornou imortal a partir na década de 50, graças à preferência de ícones do cinema e da música como Marlon Brando, James Deans e Elvis Presley.
Foi criado por um gênio da época, um judeu alemão de nome Claude Levi-Strauss.
Numa canção Gilberto Gil canta "Índigo blues... Índigo blue jeans", fazendo referencia à cor mais famosa da peça criada por Strauss. Mas o jeans nem sempre foi azulzinho. No início era feito com lona de barraca e não havia preocupação com estilo, ficando entre algo marrom e bege.
E eram duros demais....
Strauss, procurando atender à clientela, pesquisou e encontrou um tecido melhor, que era de algodão, na verdade um brim, bem resistente, mas bastante flexível.
Então Straus escolheu a cor azul....a qual tingiu o jeans com um forte corante obtido a partir da raiz de uma plantia plantinha chamada Indigus, cor que passou a ser universalmente conhecida.
O nome Jeans vem de Gênova, cidade portuária da Itália, onde, desde o século XVI, seus marinheiros chamavam as calças que usavam no trabalho pelo nome carinhoso de Genes.
Com o tempo o jeans foi se fazendo cada vez mais presente em linhas de produção. A partir da década de 1950, os ícones da época do cinema, do rádio e TV começaram a adotar a peça como uma segunda pele.
Ao ver Elvis Presley vestido em um jeans, Marlon Brando, James Dean e Marilyn Monroe, as meninas da turma da saia rodada e sapatinho de verniz e os meninos da calça social ficaram deslumbrados.
No requebrado de Elvis, a criação de Strauss tomou um novo sentido. Havia, então, algo místico-mágico-religioso, e que levou adolescentes de todas as idades a quererem usá-los. E olha que eles nem imaginavam que a própria calça que usavam se tornaria uma espécie de símbolo que levou a humanidade a repensar uma série de conceitos e comportamentos.
Não é exagero, depois disso, o mundo nunca mais foi o mesmo.
Vieram os Beatles, Jimi Hendrix, Bob Dylan e Janis Joplin. Woodstock e os festivais de paz e amor. Existencialistas, punks, darks, new wave, pós-modernos...todos embarcaram na mesma onda - vestidos de jeans, claro.
No Brasil, aconteceu a mesma coisa.
Hoje, somos o segundo mercado de jeans no mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos (mas olha a população de yankees!).
Nosso consumo ultrapassa a casa dos 100 milhões de peças vendidas anualmente.
E nossa produção trilha os mesmos caminhos de prosperidade. A exportação é uma das maiores do mundo.
Liberdade. O jeans se associa sempre a esse conceito. Mas, graças ao trabalho criativo dos estilistas, a coisa não fica só no abstrato. É refletido em inúmeros estilos e cores.
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segunda-feira, 28 de julho de 2008

Meus tesouros


Meus fofos são assim mesmo, pretinhos com olhos de tigre. A ração que comem é muito boa, possuindo uma especial para filhotes, por isso a pelagem deles está bem densa, fofa e brilhosa. Tive a maior sorte de encontrá-los, não, melhor, foi um presente de Deus. Na época em que os encontrei, há uns três meses atrás, pensei em encaminhá-los para adoção depois que estivessem mais crescidinhos (eram tão pequenininhos!). Na hora minha única preocupação era tirá-los da rua.
Só que estava numa época bastante complicada e não tinha tempo nem para comer direito, então eles foram ficando, e eu me apaixonando, cada vez mais. Nunca vi mais dengosos e carinhosos!
Quando chego em casa, já estão me esperando na porta (parece que adivinham!).
É bastante raro uma ninhada só de pretinhos. Geralmente quando a gata entra no cio, aparecem vários machos, malhados, pintados, listrados, pretos e todos cruzam com ela, por isso a ninhada geralmente apresenta uma pelagem híbrida.
Minhas panterinhas negras parecem ter tido o mesmo pai, e isso é realmente muito raro.
São apenas quatro e seus nomes são Dante, Marie *, Doroth e Alice. Cada um tem sua personalidade bastante definida. As menininhas são mais calminhas, dormem geralmente juntas, e pegam no sono mais rapidamente do que seu irmãozinho. Este às vezes está tão agitado depois de brincar, que não consegue pegar no sono. Então vêm para perto de mim, miando. Então, faço carinho nele até que durma. Daí dorme bastante; até mais que as fêmeas. Engraçado isso!
São muito unidos, comem sempre juntos e gostam de dormir todos na mesma hora. Coisas que a gente só descobre quando possui a ninhada completa. E pensar que separamos esses bichinhos da mãe, dos irmãozinhos, como se eles não tivessem vínculos uns com os outros. Quanta ignorância a nossa!
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Danuza Leão faz a seguinte apresentação da obra LAROUSSE PARA GATOS - Editora Larousse Cultura para Todos:
"Gatos, como pude viver tanto tempo sem eles? São (para mim) pessoas que embelezam a casa e que mostram, a cada instante, como são parecidos conosco. Têm às vezes ciúmes, raiva, podem ser indiferentes, mas dão também muito amor. Só que, ao contrário de nós, humanos, eles não mentem e têm a coragem de fazer exatamente - e apenas - o que querem. Gatos só deitam no nosso colo quando têm vontade, e não adianta chamar, porque eles só se aproximam quando querem. São também de uma incrível sensibilidade. Só chegam perto de quem gosta deles, lição que deveríamos aprender para sermos mais felizes.
Eles são egoístas, mas também solidários, e quando precisamos podemos contar com eles. Lembro quando fiquei doente, quatro dias na cama, e eles não saíram de perto de mim nem um minuto. E de quando estive muito triste, eles também não me largaram. O que teria sido de mim sem eles?
Gatos são também a coisa mais bonita desse mundo, não há espetáculo mais lindo do que observar um gato andando pela casa, dando um pulo perfeito para subir num móvel. As top models deveriam aprender com os gatos a desfilarem numa passarela.
Não existe ser mais elegante do que um gato.
Sou inteiramente dominada pelos meus, e quando eles encostam na minha perna para dormir, fico paralisada, incapaz de me mexer para não atrapalhar o sono deles. O escultor Giacometti, também um adorador de gatos, disse uma vez que, se tivesse de escolher entre a destruição de todas as obras de arte do mundo e salvar a vida de um gato, ele não hesitaria. Sao eles as verdadeiras obras de arte da natureza.
E eles pedem tão pouco: uma latinha de atum de vez em quando, um cafuné (quando eles querem) ou faz felizes, e nada mais enternecedor do que ver dois gatos abraçados, dormindo juntos.
A única coisa que lamento é não poder levá-los para onde vou, nos passeios, nas viagens. São eles que me dão saudades quando estou longe e são eles que fazem da minha casa um lar.
[...]"
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(*) Tive que trocar o nome, antes era Fredy, porque descobri que era na verdade fêmea. Como são muito fofinhos, nem dá para ver direito.

Oração pelos Animais


Meu São Francisco de Assis
Protetor dos animais
Olhai por nós que rogamos
Vossa bênção e muita paz.

Olhai os abandonados / Sofrendo agruras nas ruas / E os que puxam carroças / Açoitados nas ancas nuas.

Pelos pobres passarinhos / Que não podem mais voar / Presos em rudes gaiolas / Só porque sabem cantar.

E as cobaias de laboratório / Que sofrem dores atrozes / Em experiências terríveis / Que lhes impõem seus algozes.

Pelos que são abatidos / Em matadouros insanos / Para servir de alimento / Aos que se dizem humanos

Olhai os que são perseguidos / Sem piedade nas florestas / Só por causa da ambição / Dessas caçadas funestas.

Pelos animais de circo / Que não têm mais liberdade / Presos em jaulas minúsculas / À mercê de crueldade.

Olhai os bois de rodeio / E os sangrados nas touradas / Barbárie e crimes impostos / Por pessoas desalmadas.

Pelos que têm de lutar / Até a morte nas rinhas / Quando o homem faz apostas / Em transações tão mesquinhas.

Olhai para os que são mortos / Nos macabros rituais / Em altares religiosos / Que usam sangue de animais.

Meu bondoso protetor
Oro a vós por meus irmãos
Para que sua dor e tristeza
não sejam sofrimentos vãos

(Ivana Maria França de Negri)

domingo, 27 de julho de 2008

Só o básico

Gosto de estar em constante processo de aprendizagem, e um que mais gosto é o relacionado ao vinho. No espaço Talk Show da Mônica Nóbrega realizado nessa sexta- feira, no Terraço Shopping, aqui perto de casa, em Brasília, foram convidados alguns leigos que estão se dedicando à gastronomia. Entre um dos patrocinadores do evento estava a Vintage, loja de vinhos do Shopping. O primeiro a apresentar foi um médico cirurgião gástrico, não lembro o nome, que elaborou um prato de massa com espinafre e presunto. Os passos para a elaboração eram reproduzidos num telão. Enquanto isso a Mônica Nóbrega fazia entrevistas com ele, o sommelier do Vintage, e os outros patrocinadores. No final foram distribuídos pequenas porções a alguns dos presentes (não tinha muita gente, talvez umas cem pessoas). Adorei, embora já tenha feito massas melhores (e ele mesmo, o médico, disse que tb já tinha feito melhores). A surpresa ficou por conta da cisma da apresentadora comigo (acho que porque sou loira, acabei me destacando um pouco dos que estavam presentes, sendo que ainda estava com uma blusa azul royal que chama um pouco a atenção). Ela pediu para que eu falasse sobre o prato. É lógico que fiquei super tímida, não me lembro quando foi a última vez que peguei num microfone, mas tentei ser o mais simpática possível , e elogiei o prato.
Antes tinhamos, eu e a minha cunhada, também Môncia, degustado um pouco do ótimo vinho escolhido para acompanhar o prato.
Como estávamos com fome, não pudemos esperar além da apresentação do segundo que era o chefe do El Passo, tb do Shopping, com sua receita de Guacamole. Então escolhemos o El Passo para irmos. Tomei frozen de tangerina e Mônica o de Abacaxi com hortelã, depois pedimos os pratos que nem eram tão picantes assim, apesar da advertência do garçom.
Ainda no espaço gourmet, do Talk Show, para o Guacamole, o sommelier tinha sugerido um espumante, que a princípio estranhei, mas como estou ainda em processo de aprendizagem, vou experimentar qualquer dia. Bem, é que imaginava que comidas assim muito características de um determinado país como o México, poderiam ser melhor degustadas com as bebidas tradicionais, tequilas, ou as que tomamos, mas é puro preconceito, eu acho.
Não sei muito sobre vinhos, mas gosto de estar aprendendo, treinando e sensibilizando meu paladar para a percepção das várias peculiaridades que acompanham essa bebida maravilhosa dos deuses.
Como acompanhante de um bom prato, o vinho deve se harmonizar com sua intensidade, ou seja, sabores mais suaves pedem bebidas mais suaves. Numa recepção ou numa entrada, um espumante leve é o mais indicado, também para um peixe mais delicado ou mesmo uma salada. O peixe frito ou o frango com pouco condimento harmonizam-se melhor com um branco menos encorpado, um Chardonnay.
Procura-se sempre seguir o equilíbrio. A carne assada vai bem com um tinto mais básico, um Chianti. Se tiver mais temperos, ou molhos mais encorpados, que permanecem na boca, melhor os mais pesados, como um Cabernet Sauvignon ou um Merlot.
Já para a sobremesa, os mais indicados são os vnhos doces ou licorosos, como os do Porto e os Jerez.
Sobre a temperatura, é muito simples: brancos devem estar entre 6ºC e 10ºC; tintos, entre 14ºC e 20ºC. Com o tempo a gente se acostuma e já consegue sentir a temperatura adequada só de pegar a garrafa do balde de gelo.
Mas o importante é achar o próprio gosto e confiar nele, mantendo-se aberto, é claro, a outros sabores. Faz parte dessa deliciosa aprendizagem!!!

Dante - Poemas autobiográficos



(REPRODUÇÃO
Retrato de Dante Alighieri, transferido para madeira, do pintor renascentista Andrea Del Castagno)

CRONOLOGIA

Não há documentos suficientes que comprovem algumas dessas datas. No entanto, seguimos aqui indicações das duas maiores autoridades sobre a vida do poeta: Giorgio Petrocchi e Robert Hollander.
1265 Nasce em Florença, entre 14 de maio e 13 de junho.
1274 Aos nove anos, tem o seu primeiro encontro com Beatriz.
1283-1293 Escreve os poemas posteriormente recolhidos na Vida nova.
1290 Morre Beatriz no dia 8 ou 19 de junho de 1290.
1294 Escrita da prosa da Vida nova.
1295 Inicia a sua carreira política
1296 Composição das rimas “pedrosas”.
1300 Ano do Jubileu proclamado pelo Papa Bonifácio VIII.
Em 7 de maio, Dante é designado embaixador em San Gimignano;
em 13 de junho, é eleito um dos seis priores de Florença;
em 23 de junho, eclodem hostilidades entre as facções políticas florentinas, que resultariam no banimento de quinze políticos.
1302 Início do exílio de Dante e provável início da escrita do tratado De vulgari eloquentia, que permanecerá inconcluso (abandonado provavelmente em 1305).
1304 Provável início da escrita do Convivio, que ficará também inconcluso (Dante terminaria o quarto tratado dos quinze previstos por volta de 1307), e também da Divina comédia (mas o trabalho nesta só se intensificaria a partir de 1306).
1308 Fim da redação do Inferno e início da do Purgatório.
1312 Fim da redação do Purgatório e início da revisão dos primeiros cânticos (Inferno e Purgatório), que ocupará o poeta até 1315.
1316 Início da escrita do Paraíso.
1321 Fim da escrita do Paraíso e, portanto, da Comédia. Em agosto, missão como embaixador de Ravena em Veneza; na viagem, Dante contrai malária; febre no retorno; morte na noite de 13 para 14 de setembro.

Dante - Poemas autobiográficos


(continuação)

Vale notar que uma aposta assim imodesta no porvir não é novidade no percurso de Dante; pelo contrário, muitas vezes a aposta no futuro funciona como uma espécie de ponto de transição interno à própria obra, prenunciando e preparando seus desenvolvimentos vindouros. Era o que já se dava no final em aberto da Vida nova, em que Dante dizia que, depois de ter composto o último soneto do livro, aparecera-lhe uma “maravilhosa visão”, na qual vira “coisas que [lhe] fizeram propor não dizer mais” de sua amada Beatriz “até que pudesse mais dignamente tratar dela”.Sua intenção, que ele afi rmava buscar cumprir por meio do “estudo” (“E di venire a•cciò io studio quanto posso”: “Para consegui-lo, estudo quanto posso”, na tradução de Carlos Eduardo Soveral), era “dizer dela aquilo que nunca foi dito de nenhuma”. Esse dizer inédito – esse poetar sobre humano – estaria associado, ainda conforme registra Dante, à possibilidade de sua alma “ver a glória da sua dama, isto é, daquela bendita Beatriz” que se encontra na companhia de Deus (“la quale gloriosamente mira nella faccia di Colui ‘qui est per omnia secula benedictus’”).Não será errôneo supor que era a Comédia – com tudo que ela representaria como conquista de uma nova dignidade estilística e formal na expressão vernacular, e isto tanto na sua trajetória pessoal quanto na trajetória mais ampla das letras italianas – que Dante prefigurava neste último parágrafo da Vida nova. Mas é claro que essa prefiguração era ainda um tanto indefinida, pouco mais do que uma pura pulsão poética futurante, ou espécie de utopia textual, a descer, só depois, sobre o mundo.

Sombras do passado ■ A contraparte desse freqüente vínculo intempestivo da poesia de Dante com o futuro é seu vínculo não menos forte com o passado. Aliás, se Dante, pela boca de seu personagem Oderisi, insinua seu próprio nome como o daquele que já estava, no momento da redação da Comédia, superando Guido Guinizzelli e Guido Cavalcanti, é porque, em cantos anteriores da obra, já reclamara uma auctoritas inapelável. De forma difusa, mas não por isso menos eficaz, essa reivindicação de autoridade e autoria atravessa a obra; mas é no canto IV do Inferno que toma a forma de um conhecido emblema da húbris dantesca, de sua pretensão sem medidas, pretensão que seria absurda e mesmo um tanto ridícula se estivéssemos tratando de qualquer outro escritor: mas não no caso de Dante.

Naquele trecho do poema, Dante, guiado pelo poeta romano Virgílio, chega ao Limbo, círculo primeiro do Inferno onde se encontram as almas boas que viveram antes de Cristo e que, portanto, não foram batizadas. É ali a morada pós-morte do próprio Virgílio, que vivera entre 70 e 19 a.C. A dupla desloca-se pela região, até que Dante avista, apartado dos demais, um grupo de homens; pergunta a Virgílio quem são, mas, mal este começa a responder, ouve-se uma voz que amigavelmente saúda o precursor:

Honrai o altíssimo poeta;
a sua sombra, que partira, retorna”.

Quatro grandes sombras”, de aparência “nem triste nem alegre”, vêm em sua direção. Virgílio nomeia-os para Dante:

Com a espada na mão, olha o decano,
à frente qual senhor a conduzir.
É Homero, poeta soberano;
o outro Horácio sátiro que vem;
o outro Ovídio e o último Lucano”

(segundo a tradução de Vasco Graça Moura).

As quatro sombras são, pois, os espectros dos maiores poetas da Antigüidade, daqueles que formavam, aos olhos de Dante (e de sua época), a “bela escola”.Para se avaliar a desmesura com que Dante concebia o valor de sua própria obra, não se pode esquecer que não estamos, aqui, diante de um relato objetivo e desinteressado, mas de uma narrativa em primeira pessoa, na qual o próprio poeta figura-se como personagem principal. Conta nos Dante que, depois de terem conversado entre si por um tempo, Virgílio e os outros quatro autores voltaram-se a ele “com um aceno de saudação”, assim chamando-o à “sua fileira”, onde ele foi “sexto entre tanto siso” (sì ch’io fui sesto tra cotanto senno). Pela primeira vez na história, um escritor vernacular ousava representar-se como um igual dos grandes escritores da Antigüidade. A grandeza literária, que até então estava reservada aos clássicos gregos e latinos, era agora uma possibilidade para os que escreviam na língua de todos os dias.

O descomedimento de Dante, ao colocar-se lado a lado com os maiores nomes do passado, tem uma importância crítico-escritural que vai muito além de seu interesse individual; conforme argumentou implica um balanço da literatura clássica e da sua função na cultura ocidental; pela primeira vez na Europa, Dante mostra a consciência de percorrer uma cumeada da história, isto é, de interpretar o momento da passagem do medievo à idade moderna; este é o sentido profundo da mundialização do cânone que Dante opera no canto IV do Inferno, no qual é representada, além daquela latina, a literatura grega na pessoa de Homero, e aquela vulgar na pessoa do próprio Dante. A peculiaridade do discurso dantesco sobre o cânone – e nisto consiste a sua carga inovadora e revolucionária e o seu excesso mesmo em relação à operação agostiniana de conversão do mundo clássico-pagão naquele cristão – é a de fazer coincidir a reelaboração do cânone com a revisão dos gêneros literários que o Medievo havia rigidamente fixado na rota Vergilii; Dante recodifica o gênero épico não somente em perspectiva cristã, mas também e sobretudo na direção do romance, a partir do momento em que a recodificação dantesca vai na direção plurilingüística, histórica e autobiográfica, perspectivas estas fortemente conotativas do romance moderno, o que é percebido perfeitamente por Boccaccio e por Petrarca, para os quais o intertexto dantesco é o lugar do diálogo e do reúso. É neste lugar e neste espaço que se constroem o sistema da literatura italiana e o advento da poesia e da prosa italianas e européias”.Gianfranco Contini, que foi quem melhor percebeu a implicação mútua da antigüidade e da modernidade de Dante, o fato de que “a sua distância é ao mesmo tempo contraprova e garantia da sua proximidade vital”, bem o disse: “A impressão genuína do póstero, encontrando-se em Dante, não é de topar com um tenaz e bem conservado sobrevivente, mas de alcançar alguém que chegou antes dele”.
(E.S.)

sábado, 26 de julho de 2008

Carta de um cão abandonado




Meu querido amor,

Dentro de mim tem coisas que, por vezes,
não se encontram em algumas pessoas.
Quando você me pegou, pequenininho, e me tirou da minha mãe eu fiquei assustado e não entendi.
Mas, de repente, comecei à sentir por você um amor tão forte e tão inexplicável!
Fui crescendo e cada vez mais desejando sua companhia.
Esperava ansioso por você, nas vezes em que saia e explodia de felicidade com a sua chegada. Nunca precisei de mais nada além de sua presença; tamanho o amor que sinto por você!
De repente, algo aconteceu quando cresci!
Você me pôs no carro (achei que fosse um dos nossos passeios tão maravilhosos que guardo na lembrança)
e me levou para muito, muito longe de nossa casa.
Abriu a porta do carro em um lugar deserto e estranho e me enxotou jogando pedras!!!
Fiquei sem entender! O que foi que eu fiz? Pensei... Pensei...e não descobri o quê te fiz.
Foi então que aconteceu o mais assustador.
Você ligou o carro e partiu acelerado!
Corri muito pela estrada atrás de você!
Até cair de exaustão.
Meus pés e mãos muito feridos.
Meu corpo cansado demais para continuar.
Minha fome e sede começaram à ficar desesperadoras.
MAS NADA IMPORTA!
Tenho que te encontrar novamente!
Porque te amo demais e nunca te esqueço!
Tenho dentro de mim uma coisa que poucos homens tem.
Tenho dentro de mim um amor de verdade.
Porque ainda amo você!
E não vou descansar enquanto não te encontrar.
Quem sabe te encontro quando morrer!!!

LU MI

Sobre nossos amigos, os pets



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{ Sexta-feira, 18 de Julho de 2008
PET
"Troque seu cachorro, por uma criança pobre..." Rock da Cachorra, Eduardo Dusek, década de 80 e o alerta estava feito. Há quase 30 anos, o exagerado dispêndio de recursos com animais de estimação já incomodava muita gente.
Em um país de tantos miseráveis, a situação parece não ter melhorado nem um pouquinho. A invasão dos negócios para nossos bichinhos, o mercado "pet", é visível por todos os cantos.Por exemplo, aqui no Belenzinho, antigo bairro paulistano, chegamos ao ponto de termos quase mais pets shops do que pizzarias! Tão próximo a Mooca, repleta de italo-descendentes nascidos na terra da garoa, isso chega a ser uma ofensa...Um dia tive meu companheiro fiel. Guardo alegres lembranças da infância com as bagunças do amigo canino. Relação saudável, grande aprendizado, mas exagerar nos mimos e "pessoalização" seria uma agressão a sua natureza animal.
Banhos de ofurô, com pétalas de rosas, sais e aromas, para descanso e relaxamento? Com variação entre R$ 30 e R$ 40, em Joinville, a Cia Bichos oferece tal regalia, além de planos de saúde, planos de estética e outros. Batizam os abastados animais de VIP, Very Important Pets...Bolos, pães, biscoitos, chocolates e donuts? Nossos melhores amigos contam até com quibes e esfihas, artesanais, com ingredientes 100% naturais e sem conservantes.
A alimentação saudável é oferecida pela Dog Bakery, em São Paulo, com preços entre R$ 5 e R$ 50 (no caso de alguns bolos).Reconstrução de pelagem com queratina animal ou vegetal? Profissionais de estética estão disponíveis para o tratamento na Friend Dog, no Rio de Janeiro, com preços de R$ 10 a R$ 25 por sessão. Mesmo com a justificativa de problemas com pêlo poderem revelar deficiência ou carências nutricionais, a valorização da estética aparenta estar em primeiro plano.Outros tantos exemplos podem ser vistos. Até estadias em hotéis com diárias de US$ 145! Os tempos de quintais gelados já passaram para uma pequena parcela da população animal... Dureza é comparar com a situação da grande população de rua, em nossas grandes cidades, que nem quintais têm para dormir.
Postado por Evandro às 16:14 }
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Meu comentário:

["1 comentários:
Elle et Lui disse...
(Lembro dessa música, mas desde aquela época já vinha recebendo algumas críticas...)
Sabe, amigo, não consigo concordar 100% com vc. Eles, nossos pets merecem e precisam do nosso amor....
até porque o amor que sentem por nós é maior do que qualquer um que vc já tenha recebido de qualquer pessoa (tiro aqui mãe e pai, é claro!).
Escolher de que forma vc vai retribuir isso é uma questão pessoal, e temos que aceitar e procurar ser mais tolerantes com as escolhas alheias.
Existem muitos miseráveis no nosso país, muitas crianças precisando de carinho, de uma família, de todo o apoio que necessitam para se tornarem pessoas capazes de exercerem seu papel na sociedade com dignidade.
Precisamos, tanto comunidade quanto Estado, cumprir o que determina a nossa Constituição, que é da proteção total à criança, ao idoso, enfim às minorias hipossuficientes.
E não é deixando de cuidar dos seus pets, por culpa, que o problema social desses hipossuficientes vai acabar.
Pelo contrário só vai aumentar o problema, ou seja, o número de abandonados, e carentes, pessoas somados aos bichinhos, estes que tiveram o azar de nascerem neste mundo louco, "o do homem" (pense nas estradas que matam aos milhares, porque os coitados não tiveram tempo para a aprendizagem de adaptação), só irá aumentar.
Então, aproveitando a insurgência da questão, o que vc acha da grande quantidade de dinheiro gasto pelas pessoas em churrascarias, e naquelas de inúmeros fundos de quintal, para se empanturrarem de carnes de "pobres animais cujas vidas são sacrificadas em benefício do prazer humano", comendo, sabemos, mesmo sem estar com fome?...Não é nada politicamente correto! E tanto é assim, que churrascarias só por aqui mesmo, lá fora (tem o Porcão em Miami, mas quem vai?...só brasileiro!), ninguém quer.
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(Aproveito, acrescentando aqui neste espaço...
Nao é nem uma questão de cultura... Já li várias matérias em publicações de vários países, sobretudo da Europa e a crítica é ferrenha, a começar pela destruição de nossas matas para criar pastos, na forma característica de uma agropecuária de extensão, tudo para alimentar esse "costume grotesco". )
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"Quando se é capaz de lutar por animais, também se é capaz de lutar por crianças ou idosos. Não há bons ou maus combates, apenas o horror ao sofrimento aplicado aos mais fracos que não podem se defender."
Brigitte Bardot - atriz francesa
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Dante - Poemas autobiográficos


(Retrato de Dante Alighieri (1495) do pintor florentino Sandro Botticelli)

[continuação]
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A partir de então, Dante erra pela Itália, de corte em corte, atuando como conselheiro político: os mais largos períodos são aqueles passados em Verona, junto ao príncipe Cangrande della Scala, de 1312 a 1318, e em Ravena, com Guido Novello da Polenta, de 1318 (ou 1319) a 1321 (nesta última cidade, graças à generosidade de Guido, Dante teria de novo a seu lado a mulher, os filhos e mesmo alguns de seus netos). Tudo isso não seria mais do que graves atribulações de um político da época, se este político não fosse Dante – e se não tivesse extraído precisamente do exílio a motivação maior de sua obra-prima, a Comédia.
Como já observou Joan M. Ferrante, o Inferno está tão cheio de conterrâneos de Dante que Florença parece ter-lhe servido como modelo para a representação do reino doloroso. Mas a acusação de Dante, quanto ao combate de todos contra todos, não se dirigia apenas aos florentinos:
“Ai serva Itália, que és da dor hotel,
nave a que arrais no temporal não resta,
não dona de províncias, mas bordel!
[...]
e agora em ti não andam sem ter guerra
os teus viventes e um e outro se morda
que o mesmo muro e o mesmo fosso encerra.
Mísera, busca as costas que te borda
o mar, e depois olha no teu seio
se alguma parte tua em paz acorda”
(tradução de Vasco Graça Moura).
Na Monarquia, tratado político que escreve por volta de 1318, paralelamente à redação dos cantos finais da Comédia, Dante propõe um império universal como meio de se superar as infelicidades nascidas da fragmentação do território não só italiano, mas europeu. A mesma idéia perpassa a Comédia, explícita, mas sobretudo implicitamente, como lastro dos juízos políticos que Dante emite ao longo de toda a obra.
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Com a Comédia, Dante consegue a proeza de ao mesmo tempo retornar ao nucleamento autobiográfico de sua obra, colocando-se desde os primeiros versos como o personagem que tudo vê e narra, e avançar em direção a um muito abrangente panorama alegórico da sociedade de sua época, que é projetada no plano atemporal dos três reinos ultramundanos sem, no entanto, perder sua historicidade.
E, na verdade, embora o tempo de Dante, ou seus mais recentes momentos antecessores, empreste ao poema alguns de seus personagens mais marcantes, não há limites para o aprofundamento no passado, que chega a Adão. No entanto, sejam egressos da Antigüidade ou do Medievo, os homens e mulheres com que Dante depara em sua peregrinação rumo a Beatriz e a Deus podem ser vistos, em certa proporção, como diversos aspectos de sua própria personalidade: estamos, afinal, dentro de sua imaginação, dentro de seus temores e de suas expectativas.
Por mais que os destinos de alguns desses personagens nos impressionem ou mesmo comovam (no tocante a isto, Francesca e Ulisses, condenados ao Inferno, mas merecedores da simpatia do autor, são insuperáveis), é a história de Dante que mais interessa. É o seu percurso até o reencontro com Beatriz e depois, com ela, até Deus que se coloca no centro da obra que Dante conseguirá concluir poucos meses antes de sua morte, em 1321.
contexto - Antes e depois de Dante
Para se compreender mais plenamente o significado e mensurar com justeza o valor da obra de Dante Alighieri, é preciso, antes de mais nada, perceber seus vínculos com o momento histórico em que foi produzida, sua participação naquele vasto movimento cultural que levou do período que conhecemos como Idade Média àquele que conhecemos como Renascença. Mas não menos importante é entender que a relação que a obra dantesca estabelece com a época e a cultura na qual aflorou não é meramente subordinada, derivativa: pelo contrário, esta obra é uma das principais instâncias de afirmação, confirmação, retificação e livre engendramento daquela cultura; em larga medida, tanto nossa imagem da Idade Média quanto que temos da Renascença são determinadas pela imaginação dantesca.
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Como bem disse Domenico de Robertis, “a cultura do tempo da Vida nova é antes de tudo aquela que a Vida nova define e representa” – e tal axioma vale não só para a Vida nova, que foi o primeiro livro de Dante, e também o primeiro livro da literatura italiana, como para todos os seus outros textos, cada um deles, mesmo quando inacabados (ou por isso mesmo), exemplares de um determinado aspecto daquela cultura em “crise de crescimento” (a expressão é do historiador Jacques Le Goff ).
Ainda De Robertis, em formulação exata: “A hipótese, retórica e didática, de um Dante sem a Comédia, ou de uma literatura ou de uma língua italiana sem Dante, é hipótese, simplesmente, de uma outra literatura e de uma outra língua”.
Aí se desenha, na lucidez do crítico, outra característica fundamental da arte de Dante, que podemos chamar de sua futuridade intrínseca, mas que, na verdade, seria mais precisamente definida como sua intempestividade radical, ou como seu anacronismo constitutivo e, sobretudo, operativo.
Para se entender a singularidade da posição dantesca é preciso traçar uma linha de diferenciação em relação a uma atitude mais generalizada frente aos “clássicos”.Diversas obras, não só literárias, são vistas pela posteridade como fundadoras de uma determinada tradição ou como decisivas em algum momento da configuração de um cânone.
No caso da obra de Dante, ocorre algo como uma inversão de perspectiva. É o próprio Dante que, antes de qualquer outro, vê a si mesmo como o autor originário do que seria a literatura italiana – e originário em sentido profundo: não necessariamente o primeiro em cronologia, ainda que em alguns aspectos o seja, mas aquele que lhe imprime o ponto de inflexão determinante, aquele que põe em questão o que já foi feito pelos predecessores e, a partir dessa reavaliação, lança as bases da literatura futura, ou pelo menos de uma de suas linhas de continuidade (trata-se aqui de uma “origem incompleta”, de uma “origem crítica”, para falarmos como Corrado Bologna, em Tradizioni e fortuna dei classici italiani).
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Aposta no futuro ■ Há uma passagem na Comédia em que a autoconfiança de Dante quanto a esta função originária da própria obra é declarada sem constrangimento algum: refiro-me ao canto XI do Purgatório, em que Dante narra seu encontro com o iluminador Oderisi da Gubbio. Ouvimos, com Dante, Oderisi lastimar a fugacidade da glória, que logo faz a fama de um artista declinar enquanto a de outro ascende; Oderisi compara, então, a superação de Cimabue por Giotto, na pintura, à de Guido Guinizzelli por Guido Cavalcanti, na poesia, assinalando por fim a possibilidade de que talvez já tenha surgido quem sobrepasse os dois Guidos – e quem seria tal campeão senão o próprio Dante?
“Acreditou Cimabue, na pintura,
manter sua posição, e agora Giotto se sobressai,
de modo que a fama daquele se tornou obscura.
Assim tirou um ao outro Guido
a glória da língua; e talvez tenha nascido
quem a um e outro expulsará do ninho”
(Purg. XI 94-99).

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Monólogo digital

Adoro internet, principalmente esse espaço que uso como meu diário (quando era adolescente, escrevi vários na forma tradicional, via agenda, caderninho cheio de coisinhas doces e fofas pregadas ao longo das páginas que refletiam, acompanhavam o que sentia em cada momento em que escrevia - e não deixava ninguém ler!). Acredito que tanto aqueles que escrevi como esse eletrônico contribuiram e contribuem para que eu me conheça mais, prestando mais atenção às minhas sensações e percepções do mundo que me cercam, e principalmente das pessoas que amo.
Acho que tento seguir, mais ou menos, na contramão da cultura do superficial estabelecida pela correria que levamos em nossas vidas nos dias de hoje. Tudo é muito rápido! E a mídia contribui ainda mais com essa sensação ao nos bombardear o tempo todo com informações do novo, de que o de ontem não serve mais, está obsoleto, já foi superado. E a gente nem aproveitou bem o chamado "obsoleto" , não aprendeu para que serve cada um daqueles recursos, quando muito só algumas noções.

E isso também é na vida pessoal, nos relacionamentos; não temos tempo para conhecer melhor o homem que amamos, e a sensação de urgência o tempo todo nos domina e nos leva a não tomar o devido cuidado com muitas coisas importantes, v.g. , se permitir transar quase que nos primeiros encontros, sem nem conhecermos bem o cara. E é assim, porque sentimos que a relação é pobre, mas enriquecer uma relação demanda tempo e esforço. Como inconscientemente queremos/precisamos queimar etapas (e quanto maior a imaturidade mais cometemos esses erros), acabamos nos precipitando na entrega da nossa intimidade física. O relacionamento sexual , então, seria uma forma de vencer várias estapas ao se criar uma intimidade precoce, que cá prá nós pode ser um "alicerce emocional" para a mulher, mas para o homem significa pouca coisa, ou nada. Na verdade, significa apenas que vc "dá fácil" e se é assim eles interpretam que é para qualquer um. Os homens sentem necessidade de serem vistos pela amada como são realmente, um ser único, e reconhecer neles alguém especial, sabendo que precisamos de tempo para conhecê-los melhor, suas virtudes e defeitos...

[E essa de dizer que homem é tudo igual é um absurdo...não, eles não são iguais, graças a Deus!]

[Atualmente meu amor pelo Marcelo é platônico, e embora o conheça um pouco mais do que ele imagina, tenho certeza de que se fosse para rolar alguma coisa, tipo a gente transar logo de cara -e isso seria uma grande tentação, já que o tesão é muito grande! - ele interpretaria também da mesma forma: que sou uma pessoa fácil, ou carente, que "não estou fazendo amor com ele", e sim "comigo mesma".
E é essa a lógica (que também serve para nós..., porque afinal, como não ficar assustada e desconfiada daquele cara que vai logo se declarando, deslumbrado, quase forçando a barra, sem dar tempo para que possamos sentir o mesmo?).
Querer reverter isso, e por mais que seja digamos "boa de cama", é querer nadar contra a maré, perder a nossa paz, nosso equilíbrio emocional e ficar um bocado de tempo com baixa estima...
Antes de irmos para a cama de alguém, e se esse alguém é realmente importante para nós, precisamos antes saber se estamos em seu coração.]

Bem, mudando de assunto, apesar desse espaço valioso de auto-conhecimento, sinto um certo desconforto ao constatar que sou pouco comunicativa:

# sobretudo no meu meio social - sou do tipo que mais escuta do que fala e às vezes a galera aproveita e abusa, afinal não é tão fácil assim encontrar pessoas dispostas a ouvirem o que elas tem para falar.
por um tempo até justificava essa "deficiência mascarada como uma opção de vida" (dava até um ar de intelectualidade, veja só!), e negava o problema, quando repetia para muitos e para mim mesma que era preferível ficar calada ou falar pouco do que falar o tempo todo só besteira (e gente assim, que fala demais, mas diz pouco, eu conheço um tantão assim!)
[Mesmo quando reagimos mais por educação dando aquele feedback - que pode até ser ruinzinho mesmo (
não importa!) , porque ainda assim alimentamos seus egos sedentos de atenção - o que temos de volta nem sempre compensa e a sensação de perda de tempo é enorme. Parece que vc doou parte do seu tempo, tão escasso, e não obteve nada de volta; às vezes nem aquela sensação de satisfação gerada pela solidariedade nos consola].
Conheço também um tantão assim de pessoas que como eu (fala pouco, e nem sempre tem a sorte de não ter que ouvir tanta besteira dos que falam muito) convivem diariamente com esse problema. E, talvez por isso, acabamos nos isolando um pouco, buscando um pouco de solidão, que é quase uma fuga desesperada em busca de um espaço só nosso, aquele que permita que sejamos só nós mesmos, crus e sem artifícios, sem preocupações com o desempenho do nosso papel social, ou nosso ser social (com reflexões e carregados de distorções, que incomodam e acabam nos levando a ficar muitas vezes no "piloto automático").

Por isso, acho, é muito importante o nosso lar! Nele podemos desfrutar do tão necessitado silêncio, sem tv ligada, nenhuma música, apenas o convívio de nossos bichinhos de estimação... Tem também o prazer da companhia da pessoa amada, mas essa já é outra história, outra diferente dimensão.
A sensação de liberdade é enorme e a paz é imensa!
Também um espaço só meu, como esse "diário eletrônico" também é muito importante. Nele eu viajo ao centro do meu ser e reconheço as verdadeiras periferias e veredas que fazem parte da estrutura espiritual que forma minha pessoa, em simplicidade e complexidade, humildade e orgulho do que sou, da imensa fraqueza e tantas vezes da força que eu nem sabia existir...

Dante - Poemas autobiográficos



Sonho de Dante, em tela de Dante Gabriel Rosseti (1828-82), representante do movimento pré-rafaelita



(continuação)

Morte de Beatriz ■ Temos aí, conforme Dante o relata, o nascimento da sua poesia, com o soneto “A ciascun’alma presa” (“A cada alma enamorada”). O soneto, cujo sentido, segundo Dante, não teria sido compreendido, então, por nenhum de seus leitores, marca, no entanto, o ingresso do neófito no círculo dos líricos florentinos, entre os quais se destacava Guido Cavalcanti (identificado, na Vida nova, somente pelas perífrases “primo delli miei amici”, “primeiro dos meus amigos”, e “mio primo amico”, “meu primeiro amigo”).O que mais impressiona, do ponto de vista histórico-crítico, na Vida nova é o modo com o qual Dante consegue mesclar a narrativa da formação de sua própria poesia – e do seu reconhecimento, que é antes de tudo auto-reconhecimento, como poeta relevante no contexto inicialmente florentino, mas logo italiano – com uma narrativa mais ampla, que naquela outra se reflete e condensa, da formação da lírica vernacular européia.

Na progressão da Vida nova, em que Dante passa dos sonetos iniciais, orientados pela poética transpessoal do que ficou conhecido, segundo uma expressão da Comédia, como dolce stil novo (doce estilo novo), a uma poesia mais madura e individual, marcada pelo evento decisivo da morte de Beatriz, pode-se ver também uma ultrapassagem mais abrangente de uma série de procedimentos, formas e imagens legados pelo trovadorismo à lírica européia do século XIII.

A necessidade, poética e histórica, de superação do modo trovadoresco de rimar formula-se na Vida nova em palavras misteriosas do deus Amor; diz ele a Dante: “Fili mi, tempus est ut pretermictantur simulacra nostra” – frase que pode ser traduzida, aproximativamente, como: “Filho meu, é tempo de que nossos simulacros sejam postos de lado”. Simulacra, aí, pode ser traduzido também, como o faz Guglielmo Gorni, como “ficções corteses”, aludindo-se a ficções próprias da cultura dos trovadores originalmente occitânicos. Trata-se, em suma, para Dante, de trocar as imagens falsas (os simulacros) que povoavam a poesia imediatamente anterior – as imagens de amadas fictícias que não correspondiam a nenhuma experiência concreta, reduzindo-se muitas vezes a meras fórmulas retóricas – pela imagem verdadeira de Beatriz, imagem desdobrada simbolicamente, tanto na Vida nova quanto na Comédia, pela Verônica (“ymagine benedecta”): ou seja, pelo sudário em que estaria impresso o rosto de Cristo desde o Calvário, verdade tornada imagem, verdade gravada em sangue, como Dante concebe sua poesia depois da morte de Beatriz.

É interessante que, depois da Vida nova, Dante não se tenha posto imediatamente a escrever o poema que, de algum modo, anuncia no final daquele livro, poema em que pretendia tratar “mais dignamente” de Beatriz. Interessante e, sobretudo, sintomático do incessante “experimentalismo” dantesco, bem diagnosticado por Contini, experimentalismo que não respeita qualquer linearidade evolutiva, ainda que alguma evolução sempre haja (uma obra nova não invalida as anteriores, como poderia supor um evolucionismo ingênuo, mas põe em questão as obras contemporâneas que se mostram menos adequadas do que ela a seu momento histórico: nisto, Dante sempre foi genial, propondo, uma após outra, diferentes soluções para os problemas da literatura de seu tempo).

Donna petra ■ Depois da Vida nova, e antes da Comédia, por volta de 1296, Dante compôs quatro canções que, como já demonstraram com leituras cruzadas detalhadas os norte-americanos Robert M. Durling e Ronald L. Martinez e o italiano Corrado Bologna, foram fundamentais para a passagem da poesia da juventude àquela da maturidade, ao permitirem a Dante ensaiar uma maior variedade estilística do que aquela aprendida com seus amigos “fedeli d’Amore”: naquelas que são conhecidas como rimas “pedrosas” (“petrose”), a doçura stilnovista é posta à prova no confronto com uma aspereza ou mesmo crueldade de dicção inencontrada no Dante anterior, crueldade, ou “realismo”, de que Dante não poderia prescindir ao escrever, futuramente, o Inferno e o Purgatório, as duas primeiras partes – ou “cânticos” – da Comédia.

Para se alcançar essa crueldade, foi preciso colocar entre parênteses o amor por Beatriz, que justificara toda sua primeira poesia e voltaria a justificar a Comédia, e, inspirando-se não só formalmente no poetar dificultoso do trovador Arnaut Daniel (seu trobar clus), criar um novo simulacro feminino, a donna petra (dama pedra). De toda a produção poética de Dante, talvez sejam as “pedrosas” o único momento de deliberada incoincidência entre texto e vida: em alguma medida, é como se o autor se retraísse, levando consigo, caladas, suas experiências (seus amores, suas amizades, suas angústias, suas esperanças), para algum ponto neutro atrás do poema e deixasse este se armar, por si mesmo, como uma espécie de pura edificação de forma e imagem.

O lustro de 1298 a 1303 é de pouca atividade literária para Dante. Desde 1295, ele já estava envolvido na política de sua cidade natal, Florença, logo assumindo postos na administração comunal. De 1299 em diante, a cidade imerge numa profunda crise, devido à luta implacável entre as duas facções do partido Guelfo, a que Dante pertencia. Uma seqüência de banimentos de nomes importantes da vida política florentina só piora a situação.

Em 27 de janeiro de 1302, também Dante é expulso de Florença. A pena inicial é de dois anos de exílio, e uma multa de 5 mil florins deve ser paga, caso queira regressar. Em 10 de março, porém, a sentença de Dante, junto com as de outros 14 exilados, é mudada para pena de morte. Se retornasse a Florença, seria queimado vivo.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Dante - Poemas autobiográficos



A obra de Dante se constrói em torno de um núcleo autobiográfico, tendo sempre à frente um eu poético que coincide com o eu empírico do autor

por Eduardo Sterzi*

(BIBLIOTECA BRITÂNICA/LONDRES - Página do Paraíso, da Divina Comédia, em edição de 1440, com iluminuras da Escola italiana)

Difícil separar em Dante o mito pessoal, de um lado, e, de outro, a vida situada aquém da imaginação e da poesia. Afinal, toda sua obra se construiu em torno de um núcleo autobiográfico, tendo sempre à frente, mesmo nos momentos de mais fantástica idealização, um eu poético que se apresentava como coincidente com o eu empírico do autor. Ainda que, em menor ou maior grau, transfiguradas, foram as experiências efetivamente vividas por Dante que ele tomou como pontos de partida para seus textos, sejam estes líricos ou narrativos, ou mesmo tratadísticos. E sobre a realidade dessas experiências, especialmente em suas extremas transfigurações na Comédia, Dante sempre insistiu.
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Como disse Charles S. Singleton, a ficção da Comédia é de que ela não seja ficção – e o mesmo, podemos acrescentar, talvez valha para as demais obras de Dante, sobretudo para a Vida nova, em cuja introdução ele declara que apenas transcreverá o que está registrado no livro da sua memória. Há, ao longo de toda sua obra, uma postulação de verdade – teologicamente fundada, mas realizada sobretudo como humana adequação do texto à “vida” (palavra central em Dante, desde o título do primeiro livro) – em permanente tensão com a consciência de estar escrevendo ficção (fictio).
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Essa tensão é bem expressa pelo trecho da epístola ao príncipe Cangrande della Scala, seu protetor por ocasião do exílio em Verona, em que Dante tenta definir a “forma” da Comédia por meio de uma série proliferante, e em alguma medida contraditória, de adjetivos: “Forma sive modus tractandi est poeticus, fi ctivus, descriptivus, digressivus, transumptivus, et cum hoc diffi nitivus, divisivus, probativus, improbativus, et exemplorum positivus” (“A forma, ou modo de tratar, é poética, ficcional, descritiva, digressiva, transuntiva, e ao mesmo tempo definitiva, divisiva, probativa, improbativa e exemplificativa”).
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Amor unilateral ■ Na Vida nova, seu primeiro livro, no qual, por volta de 1294, reúne e comenta alguns dos sonetos e canções, e uma única balada, que escrevera a partir de 1283, Dante se apresenta como um poeta saindo da juventude e ainda sob o impacto da morte de sua amada, Beatriz. A história desse amor (a rigor, unilateral) é rememorada em ordem cronológica, com certa precisão, numerologicamente manipulada, para a passagem do tempo, mas com deliberada omissão de nomes de pessoas e lugares. Apenas Beatriz é nomeada, e ainda assim porque seu nome pode ser lido também como apelido: Beatriz é aquela que dá beatitude.
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A narrativa começa pelo primeiro encontro de Dante e Beatriz, quando ambos tinham nove anos (o número nove é recorrente na Vida nova, como cifra milagrosa). Dos anos precedentes da infância, nada é dito no livro e pouco se sabe: que Dante foi batizado (com o nome de “Durante”) em 26 de março de 1266; que nascera no ano anterior sob o signo de Gêmeos, o que permite a seu biógrafo, Giorgio Petrocchi, inferir, “com quase absoluta certeza”, que veio à luz em algum dia entre 14 de maio e 13 de junho, e “mais provavelmente lá pelo fim de maio”; que seu pai era Alighiero Alighieri (ou Alighiero II), e sua mãe, Bella, possivelmente da família Abati; que a mãe morreu jovem (em alguma data desconhecida entre 1270 e 1275), e Alighiero casou-se em segundas núpcias; que seu avô paterno, Bellincione, contou-lhe inúmeras histórias sobre Florença, as quais ele retomaria na Comédia; enfim, que passou a meninice na mesma casa em que nasceu, na paróquia de San Martino del Vescovo, com alguns breves intervalos em outras propriedades da família, em Camerata e San Miniato a Pagnolle.
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Mas deixemos de lado a vida que não é obra e voltemos à Vida nova: desde aquele encontro precoce com Beatriz, no nono ano de suas vidas, Dante já se sente dominado pelo Amor, que lhe aparecerá, em visões, como um deus (versão medieval do Eros grego). O segundo encontro digno de nota se dá nove anos depois do primeiro, e é só então que Beatriz dirige a Dante uma saudação: ao ouvir as palavras de sua dama pela primeira vez, Dante sente-se “como inebriado” e, assim, recolhe-se à solidão de seu quarto (“al solingo luogo d’una mia camera”), onde a primeira visão de Amor lhe acossa em meio ao sono, numa combinação inextricável de alegria e angústia, doçura e terror: o deus lhe aparece, em meio a uma nuvem cor de fogo, na figura de um senhor, “de pavoroso aspecto a quem a olhasse”, e que lhe diz, em latim, “Ego Dominus tuus” (“Eu sou o teu Senhor”); nos braços, carrega uma mulher nua, que dorme, apenas envolta num leve tecido cor de sangue; Dante descobre ser Beatriz essa mulher adormecida e vê que ela traz numa das mãos um coração ardente, como se lhe dissesse ser o dele; e ela, de súbito, despertada por Amor, e sob suas ordens, passa a comer do coração de Dante; finalmente, Amor, que até então mostrava-se alegre (embora temível), começa a chorar, e, como relembra Dante, “assim, chorando, recolhia a dama nos seus braços, parecendo-me que subia com ela para o céu” (na tradução de Carlos Eduardo Soveral).
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Angustiado, Dante desperta e, refletindo sobre o significado do que vira em sonho, resolve escrever um soneto em que registrasse o encontro onírico com o deus Amor e com Beatriz, para depois enviá-lo “a muitos que eram famosos trovadores naquele tempo”, pedindo-lhes que decifrem a visão.
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* Eduardo Sterzi é poeta e doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, com tese sobre Dante Alighieri e a origem lírica moderna. É autor dos livros Prosa (2001) e Por que ler Dante Alighieri (2008). Atualmente, realiza pós-doutorado na USP e prepara seu segundo livro de poemas, Aleijão.
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quarta-feira, 23 de julho de 2008

Decálogo do crítico



Por Michel Laub para Entrelivros

Ler por obrigação, ganhar pouco, ser odiado por autores criticados ou ignorados por você. Ante tantos dissabores, saiba para que serve, afinal, fazer crítica literária.
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I - Um bom começo pode ser a leitura de O imperador do vinho, de Elin McCoy, a biografia do americano Robert Parker. Trata-se da figura mais polêmica do universo milionário da enologia. Uma nota alta na The Wine Advocate, sua newsletter, é capaz de enriquecer um fabricante; uma nota baixa pode significar a falência. O olfato de Parker é segurado em cerca de US$ 1 milhão. Ao longo dos anos, percebeu-se que ele gostava de vinhos frutados. Muitas propriedades, até algumas tradicionais da França, passaram a chamar especialistas para estudar o solo, mudar a forma do plantio e da colheita, tudo para colher uvas que originassem vinhos adequados a esse gosto.
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II - Saiba que esse talvez seja o exemplo máximo de crítico bem-sucedido no mundo de hoje – rico de fato, influente de fato, uma presença de fato essencial em seu meio. Quase todos os outros profissionais da categoria, trabalhem eles com música, cinema, gastronomia, televisão ou concursos de beleza, estão bem mais próximos da figura descrita por George Orwell em Confissões de um resenhista: “Trinta e cinco anos, mas aparenta cinqüenta(...) [trabalha num] conjugado frio, mas abafado (...). Dos milhares de livros que aparecem todo ano, é quase certo que existam 50 ou 100 sobre os quais teria prazer em escrever. Se for de primeira categoria na profissão, pode conseguir dez ou vinte. É mais provável que consiga dois ou três”.
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III - Ou seja, prepare-se para uma atividade enfadonha e mal-remunerada. Você lerá só por obrigação. Nunca mais irá atrás de um livro indicado por um amigo. Nunca mais fechará um livro com a sensação de que, para o bem ou para o mal, não há nada a dizer sobre ele. Porque sempre haverá o que dizer. Se não houver, as contas não são pagas.
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IV - Não se preocupe, porém. Há muitos truques para encher essas páginas em branco. Se você quer desancar um livro e não sabe como, recorra a alguns adjetivos algo abstratos em se tratando de literatura, mas ainda assim úteis numa resenha. A timidez, por exemplo. Argumente que o autor não explora suficientemente os conflitos de sua obra. Afinal, explorar conflitos é uma tarefa que não tem fim, e há um momento em que todo autor, por mais extrovertido que seja, precisa parar. Outros chavões sempre à mão: excesso de objetividade,excesso de subjetivismo, excesso de frieza, excesso de dramaticidade. A categoria das “idéias fora de lugar”, deslocada de seu contexto original, também ajuda bastante. Um romance correto, instigante e envolvente pode ser atacado por reproduzir um modelo “burguês” de contar histórias, incompatível com o nosso tempo. Um romance sem essas características pode ser destruído, justamente, por ser mal-escrito e não envolver o leitor.
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V - Para o caso contrário, isto é, se você quer elogiar um livro que acha ruim – o das linhas finais do item IV, por exemplo –, há dois recursos clássicos: a) em relação à prosa desagradável, escatológica e/ou ilegível, diga que ela reproduz o incômodo e a irredutibilidade de sentidos do mundo contemporâneo; b) em relação à trama caótica e fragmentária, quando não se entende o que é início, o que é fim e do que é mesmo que estamos falando, afirme que a maçaroca reproduz, como uma “metáfora estrutural”, o caos fragmentário da sociedade pós-industrial.
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VI - Usando desses truques, você está pronto para fazer nome devido à afinação com o vocabulário crítico de sua época. Mas se, por um desses acasos raros, você está decidido a realmente dizer o que pensa, há também dois caminhos a seguir. O primeiro é confiar cegamente nos seus juízos pessoais, não temendo a exposição de seus preconceitos íntimos em público. Assim, você terá mais chances de ser considerado um sujeito ranheta, excêntrico e/ou pervertido.
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VII - O segundo caminho é considerar-se portavoz de um “sistema”, para o qual são válidas mesmo obras que não são do seu agrado (por questões sociológicas, por exemplo). Mesmo que os motivos sejam nobres – sua humildade para não se considerar o juiz definitivo sobre o que é ou não relevante em termos estéticos –, há boas probabilidades de você ser visto como um crítico sem alma, sem coragem, sem graça.
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VIII - Independentemente de sua escolha, é inevitável que você seja desprezado. Todos dirão que seu desejo secreto era ser ficcionista ou poeta, que você é leviano demais, complacente demais, que tem algum interesse obscuro – ascender na carreira, agradar aos pares da universidade, arrumar um(a) namorado(a) – ou está a soldo de alguma entidade obscura – grupos literários rivais, editores, maçons, seitas religiosas, partidos políticos de esquerda (se você escrever numa pequena publicação) ou de direita (se receber salário de alguma corporação de mídia).
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IX - Mais que isso: você será odiado. Pelos autores que você desanca. Pelos autores que você ignora. Pelos autores que você elogia (os motivos serão sempre os errados, na opinião deles). Pelos outros críticos. Por boa parte do público, mesmo por aquele que o lê com freqüência.
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X - Mas se, apesar de tudo isso, você ainda insiste em abraçar a profissão, é bom se perguntar o motivo. Quando criança, usando o olfato, Robert Parker era capaz de listar todos os ingredientes dos pratos que estavam sendo cozinhados na vizinhança, habilidade que o tornaria um campeão absoluto dos “testes cegos” de identificação de uvas e safras. Isso se chama vocação. É o seu caso? Você se sente preparado para conjugar erudição e capacidade interpretativa em tamanha escala? Sendo a resposta afirmativa, trata-se de uma ótima notícia. Não só para você, que talvez tenha achado um modo honesto de ganhar a vida, mas para o próprio meio literário. Porque não há nada de que ele necessite mais, hoje ou em qualquer tempo: alguém que o ajude a firmar tendências, corrigir rumos, separar o joio do trigo. Diferentemente do que se diz, um crítico autêntico não é apenas o advogado do público. Ele é, em última instância, o maior defensor da própria literatura.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Mais quatro ótimos livros


{ 17/04/2008 - 12h00
Livros ensinam a ler as grandes obras de Shakespeare, Borges e Dante

PATRICIA DE CIA

Aprender a ler é mais do que ser capaz de compreender palavras, frases e parágrafos.
É também conhecer as múltiplas linguagens da ficção, suas épocas e lugares.

Pois acabam de chegar às livrarias alguns exemplares que ensinam a ler literatura: a série "Por que ler", da Globo Livros, e "Para ler como um escritor", de Francine Prose, da Jorge Zahar.
A série "Por que ler" estréia com três volumes dedicados ao italiano Dante Alighieri, ao inglês William Shakespeare e ao argentino Jorge Luis Borges

A série "Por que ler" vem reforçar a oferta de guias de leitura brasileiros, como os da série Folha Explica - Literatura. Estréia com três volumes dedicados ao italiano Dante Alighieri, ao inglês William Shakespeare e ao argentino Jorge Luis Borges. A estrutura segue um padrão único. Estão incluídos biografia do autor (batizada de "Retrato do Artista"), cronologia, uma breve seleção de trechos ("Entre aspas") e um ensaio crítico.
O poeta Eduardo Sterzi apresenta Dante,
a tradutora e crítica de teatro Barbara Heliodora discorre sobre Shakespeare e
a professora de literatura hispano-americana Ana Cecilia Olmos se encarrega de Borges.

Em seu ensaio sobre Dante, Sterzi chama a atenção para um fato importante: diante de autores como o italiano (e Shakespeare), mais do que "por que ler" a pergunta que se impõe é "como ler" sua obra.
As especificidades do tempo, da forma e dos referenciais muitas vezes escapam até para quem compartilha seu idioma e os estudou no currículo escolar.
O que dirá então do leitor brasileiro do século 21?
Daí o grande papel dos guias de leitura, que servem de introdução, apontam caminhos e iluminam pontos obscuros.

Em "Para ler como um escritor", Francine Prose vai muito além do escopo dos guias sobre um determinado autor.
Ela busca demonstrar os mecanismos do texto literário, os variados modos pelos quais se provoca este ou aquele efeito no leitor.
Como, a partir da escolha de palavras, do ritmo e da construção das frases e dos parágrafos, os escritores se tornam grandes.
Prose é autora de ficção, crítica literária, ensaísta e professora de literatura e redação criativa com passagens pelas universidades de Harvard e Columbia.
É dessa experiência de ensinar a escrever que surgiu a inspiração para o livro, que está muito longe de ser um rígido manual cheio de técnicas e mandamentos.
Num estilo que se aproxima mais da conversa entusiasmada sobre literatura, a autora demonstra que a leitura foi um de seus maiores mestres na arte de escrever:

Em "Para ler como um escritor", Francine Prose busca demonstrar os mecanismos do texto literário.
"No processo de me tornar uma escritora, li e reli os autores de que mais gostava.
Lia por prazer, primeiramente, mas também de maneira mais analítica, consciente do estilo, da dicção, do modo como as frases eram formadas e como a informação estava sendo transmitida, como o escritor estava estruturando uma trama, criando personagens, empregando detalhes e diálogos. [...] Embora seja impossível recordar todas as fontes de inspiração e instrução, posso lembrar os romances e contos que me pareceram revelações: poços de beleza e prazer que eram também livros didáticos, aulas particulares da arte de ficção.
"

"Para ler como um escritor" trata dos grandes elementos que formam a ficção, entre eles narração, diálogos, personagem, pormenor.
Todos esses temas são desenvolvidos a partir de exemplos tirados de obras variadas, não só autores de língua inglesa.
Aliás, o único escritor que recebe um capítulo exclusivo é o russo Tchekhov.
Ao final, Prose inclui uma lista de "livros para ler imediatamente".
A edição brasileira tem o acréscimo de um "Posfácio à moda da casa", no qual Italo Moriconi repassa os autores e modelos da literatura brasileira. }

"Por que ler Dante"Autor: Eduardo Sterzi Editora: Globo Preço: R$ 21,00
"Por que ler Shakespeare"Autor: Barbara Heliodora Editora: Globo Preço: R$ 18,00
"Por que ler Borges"Autor: Ana Cecilia Olmos Editora: Globo Preço: R$ 19,00
"Para ler como um escritor"Autor: Francine Prosa Editora: Jorge Zahar Preço: R$ 44,90

(Comprei todos, e estou adorando!... Dois do "Para ler como um escritor" , um vou dar de presente para uma pessoa muito querida e especial...)

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Decálogo do autor


Por Miguel Sanches Neto para Entrelivros

Depois de leitor, você pode se tornar, então, escritor– embora, pasme, muitos hoje pulem a leitura, por julgá-la dispensável, e já desejem publicar...


I - Não fique mandando seus originais para todo mundo.Acontece que você escreve para ser lido extramuros, e deseja testar sua obra num terreno mais neutro. E não quer ficar a vida inteira escrevendo apenas para uma pessoa. O que fazer então para não virar um chato? No passado, eu aconselharia mandar os textos para jornais e revistas literárias, foi o que eu fiz quando era um iniciante bem iniciante. Mas os jovens agora têm uma arma mais democrática. Publicar na internet. Há muitos espaços coletivos, uma liberdade de inclusão de textos novos e você ainda pode criar seu próprio site ou blog, mas cuidado para não incomodar as pessoas, enviando mensagens e avisos para que leiam você.

II - Publique seus textos em sites e blogs e deixe que sigam o rumo deles. Depois de um tempo publicando eletronicamente, você vai encontrar alguns leitores. Terá de ler os textos deles, e dar opiniões e fazer sugestões, mas também receberá muitas dicas.

III - Leia os contemporâneos, até para saber onde é o seu lugar. Existe um batalhão de internautas ávidos por leitura e em alguns casos você atingirá o alvo e terá acontecido a magia de um texto encontrar a pessoa que o justifica. Mas todo texto escrito na internet sonha um dia virar livro. Sites e blogs são etapas, exercícios de aquecimento. Só o livro impresso dá status autoral. O que fazer quando eu tiver mais de dois gigas de textos literários? Está na hora de publicar um livro maior do que Em busca do tempo perdido? Bem, é nesse momento que você pode continuar sendo um escritor iniciante comum ou subir à categoria de iniciante com experiência. Você terá que reduzir essas centenas e centenas de páginas a um formato razoável, que não tome muito tempo de leitura de quem, eventualmente, se interessar por um livro de estréia. Para isso,você terá de ser impiedoso, esquecer os elogios da mulher e dos amigos e selecionar seu produto, trabalhando duro para que fique sempre melhor.

IV - Considere apenas uma pequenina parte de toda a sua produção inicial, e invista na revisão dela, sabendo que revisar é cortar. O livro está pronto. Não tem mais do que 200 páginas, você dedicou anos a ele e ainda continua um iniciante. Mas um iniciante responsável, pois não mandou logo imprimir suas obras completas com não sei quantos tomos, logo você que talvez nem tenha completado 30 anos. Mas você quer fazer circular a sua literatura de maneira mais formal. Quer o livro impresso. E isso é hoje muito fácil. Você conhece um amigo que conhece uma gráfica digital que faz pequenas tiragens e parcela em tantas vezes. O livro está pronto. E anda sobrando um dinheirinho, é só economizar na cerveja.

V - Gaste todo seu dinheiro extra em cerveja, viagens, restaurantes e não pague a publicação do próprio livro. Se você fizer isso, ficará novamente ansioso para mandar a todo mundo o volume, esperando opiniões que vão comparar o seu trabalho ao dos mestres. O livro impresso, mesmo quando auto-impresso, dá esta sensação de poder. Somos enfim Autores. E podemos montar frases assim: Borges e eu valorizamos o universal. Do ponto de vista técnico, Borges e eu estamos no mesmo nível: produzimos obras impressas; mas a comparação não vai adiante. Então como publicar o primeiro livro se não conhecemos ninguém nas editoras? E aí começa um outro problema: procurar pessoas bem postas em editoras e solicitar apresentações. Na maioria das vezes isso não funciona. E, mesmo quando o livro é publicado, ele não acontece, pois foi um movimento artificial.

VI - Nunca peça a ninguém para indicar o seu livro a uma editora. Se por acaso um amigo conhece e gosta de seu trabalho, ele vai fazer isso naturalmente, com alguma chance de sucesso. Tente fazer tudo sozinho, como se não tivesse ninguém mais para ajudar você do que o seu próprio livro. Sim, este livro em que você colocou todas as suas fichas. E como você só pode contar com ele...

VII - Mande seu livro a todos os concursos possíveis e a editoras bem escolhidas, pois cada uma tem seu perfil editorial. É melhor gastar seu dinheiro com selos e fotocópias do que com a impressão de uma obra que não será distribuída e que terá de ser enviada a quem não a solicitou. Enquanto isso, dedique-se a atividades afins para controlar a ansiedade, porque essas coisas de literatura demoram, demoram muito mesmo. Você pode traduzir textos literários para consumo próprio ou para jornais e revistas, pode fazer resenhas de obras marcantes, ler os clássicos ou simplesmente manter um diário íntimo. O importante é se ocupar. Com sorte e tendo o livro alguma qualidade além de ter custado tanto esforço, ele acaba publicado. Até o meu terminou publicado, e foi quando me tornei um iniciante adulto. Tinha um livro de ficção no catálogo de uma grande editora. E aí tive de aprender outras coisas. Há centenas de livros de iniciantes chegando aos jornais e revistas para resenhas e uma quantidade muito maior de títulos consagrados. E a maioria vai ficar sem espaço nos jornais. E é natural que os exemplares distribuídos para a imprensa acabem nos sebos, pois não há resenhistas para tantas obras.

VIII - Não force os amigos e conhecidos a escrever sobre seu livro. Não quer dizer que eles não possam escrever, podem sim, mas mande o livro e, se eles não acusarem recebimento ou não comentarem mais o assunto, esqueça e não lhes queira mal, eles são nossos amigos mesmo não gostando do que escrevemos. Se um ou outro amigo escrever sobre o livro, festeje mesmo se ele não entender nada ou valorizar coisas que não julgamos relevantes em nosso trabalho. E mande umas palavras de agradecimento, pois você teve enfim uma apreciação. E se um amigo escrever mal de nosso livro, justamente dessa obra que nos custou tanto? Se for um desconhecido, ainda vá lá, mas um amigo, aquele amigo para quem você fez isso e aquilo.

IX - Nunca passe recibo às críticas negativas. Ao publicar você se torna uma pessoa pública. E deve absorver todas as opiniões, inclusive os elogios equivocados. Deixe que as opiniões se formem em torno de seu trabalho, e talvez a verdade suplante os equívocos, principalmente se a verdade for que nosso trabalho não é lá essas coisas. O livro está publicado, você já pensa no próximo, saíram algumas resenhas, umas superficiais, outras negativas, uma muito correta. Você é então um iniciante com um currículo mínimo. Daí você recebe a prestação de contas da editora, dizendo que, no primeiro trimestre, as devoluções foram maiores do que as vendas. Como isso é possível? Vejam quantos livros a editora mandou de cortesia. Eu não posso ter vendido apenas 238 exemplares se, só no lançamento, vendi 100, o gerente da livraria até elogiou – enfim uma vantagem de ter família grande.

X - Evite reclamar de sua editora. Uma editora não existe para reverenciar nosso talento a toda hora. É uma empresa que busca o lucro, que tem dezenas de autores iguais a nós e que quer ter lucro com nosso livro, sendo a primeira prejudicada quando ele não vende. Não precisamos dizer que é a melhor editora do mundo só porque nos editou, mas é bom pensar que ocorreu uma aposta conjunta e que não se alcançou o resultado esperado. Mas que há oportunidades para outras apostas e, um dia, quem sabe...Foi tentando seguir estas regras que consegui ser o autor iniciante que hoje eu sou.


segunda-feira, 21 de julho de 2008

Analogia citadina da paisagem interior



Paisagens Urbanas

Falas da filósofa Olgária Matos

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"Há pelo menos duas maneiras de nós abordarmos uma cidade. Existe a cidade superficial, racionalista, aquela onde triunfa a linha reta, onde o caminho que nós tomamos para chegar a uma determinada finalidade é o caminho da rotina, da repetição, do mesmo. Existe uma outra abordagem da mesma cidade, que não é a abordagem da cidade superficial, mas é aquela cidade subterrânea, a cidade da memória e é a cidade labiríntica."
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"O caminhar pela cidade, ele pode nos surpreender a qualquer momento, desde que nós estejamos distraídos, desde que esse caminhar possa estar aberto para o inesperado. Esses lugares que têm o dom da profecia, ou seja, são capazes de nos fazer prever a nossa própria vida no instante mesmo em que nós nos deparamos com ele, depende apenas do acaso que nós o encontremos ou nunca o encontremos."
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"A memória labiríntica é aquela que nos permite o acesso à cidade subterrânea que há em cada um de nós. Cada um de nós se assemelha mimeticamente à cidade na qual ele vive. Mas nós só temos acesso a essa cidade, a nossa própria história, através de uma memória involuntária, pois é uma memória inintencional e o inesperado de um detalhe do espaço ou de um acontecimento no tempo que podem transformar inteiramente o acesso a nossa própria história. Reabrir, por exemplo, o nosso passado."
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"A rua é o único campo válido da experiência moderna. Porque uma rua, ela não é um espaço abstrato. Uma rua, ela concentra memórias e sentimentos. Uma rua é um lugar onde uma guerra aconteceu, um amor acabou, algo se passou. E a rua também, ela é testemunha dos grandes acontecimentos históricos. Por isso que a rua lateja fora e dentro daquele que vai mapeá-la, que vai atravessá-la."
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"... os olhos se transformaram em dispositivo de segurança."
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"Diz-se das cidades modernas que elas são heraclitianas: nós não passamos duas vezes na mesma rua sem que ela tenha mudado. Portanto, sem os suportes objetivos da memória, com o desaparecimento de ruas, monumentos, objetos que eram referenciais de nossa história, apenas a memória infantil é capaz de manter na subjetividade, na forma do segredo, esse contato e esse pacto interno com a cidade que não é mais a cidade visível, mas é a cidade invisível da sua própria memória. A criança desconhece o tempo de decadência. Para uma criança uma cidade nunca é decadente. Porque o objeto mais recente da produção em série, como o objeto mais antigo, digamos, do tempo dos faraós, tanto um quanto o outro é visto pela criança pela primeira vez.
Uma cidade, ela não se faz e não fica com aquilo que nós gostaríamos que ela tivesse e com aquilo que nós gostaríamos que nela ficasse. A cidade, ela não se faz com espaço. O arquiteto normalmente trabalha com o espaço, mas ele deveria trabalhar com o tempo. Portanto a cidade não é a ordem espacial, a cidade é a desordem das lembranças."
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"As grandes galerias construídas no século XIX em ferro e vidro, elas são ao mesmo tempo o interior e o exterior. Porque o vidro, na sua transparência, torna possível essa indefinição entre o que é interno e o que é externo. Isso significa que também na nossa própria vida nós não temos mais a possibilidade de detectarmos com clareza o que é externo a nós e o que é interno. Assim, as ruínas da cidade, aquilo que entrou em estado de decomposição, que ruiu antes de envelhecer, porque a modernidade se caracteriza pela impossibilidade do envelhecimento, essas ruínas nas grandes cidades são nossas ruínas internas."
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"O fisionomista é aquele que percorre a cidade para reconhecer no exterior o interior. Ou seja, para ele o interior e o exterior são inseparáveis. O mundo está todo dentro e ele se encontra todo fora de si. Ou seja, assim como certos espaços citadinos são uma extensão da sua própria vida interior, esses objetos também participam da sua subjetividade. Então, percorrer as cidades como um fisionomista é captar uma espécie de circulação sangüínea tanto nas ruas, quanto nos monumentos, quanto nos sinais que essa cidade apresenta, porque de alguma maneira estes objetos lhe contam alguma história."
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"A fotografia reproduz em série a mesma cena, a mesma personagem, mas ela possui também a aura de uma inesperada presença. O que é a aura de um determinado objeto? A aura é esse sentimento de que nós olhamos o objeto e que ele nos devolve o olhar. Então, uma foto nossa, mesmo que ela seja uma foto preparada, ela nos devolve aspectos desconhecidos nossos. Então ela é fonte de auto-conhecimento."
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Transcrito por Andréa Havt em outubro de 2000

Fonte: http://www.patio.com.br/labirinto


"O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído..." (Titãs)