sexta-feira, 25 de julho de 2008

Dante - Poemas autobiográficos



Sonho de Dante, em tela de Dante Gabriel Rosseti (1828-82), representante do movimento pré-rafaelita



(continuação)

Morte de Beatriz ■ Temos aí, conforme Dante o relata, o nascimento da sua poesia, com o soneto “A ciascun’alma presa” (“A cada alma enamorada”). O soneto, cujo sentido, segundo Dante, não teria sido compreendido, então, por nenhum de seus leitores, marca, no entanto, o ingresso do neófito no círculo dos líricos florentinos, entre os quais se destacava Guido Cavalcanti (identificado, na Vida nova, somente pelas perífrases “primo delli miei amici”, “primeiro dos meus amigos”, e “mio primo amico”, “meu primeiro amigo”).O que mais impressiona, do ponto de vista histórico-crítico, na Vida nova é o modo com o qual Dante consegue mesclar a narrativa da formação de sua própria poesia – e do seu reconhecimento, que é antes de tudo auto-reconhecimento, como poeta relevante no contexto inicialmente florentino, mas logo italiano – com uma narrativa mais ampla, que naquela outra se reflete e condensa, da formação da lírica vernacular européia.

Na progressão da Vida nova, em que Dante passa dos sonetos iniciais, orientados pela poética transpessoal do que ficou conhecido, segundo uma expressão da Comédia, como dolce stil novo (doce estilo novo), a uma poesia mais madura e individual, marcada pelo evento decisivo da morte de Beatriz, pode-se ver também uma ultrapassagem mais abrangente de uma série de procedimentos, formas e imagens legados pelo trovadorismo à lírica européia do século XIII.

A necessidade, poética e histórica, de superação do modo trovadoresco de rimar formula-se na Vida nova em palavras misteriosas do deus Amor; diz ele a Dante: “Fili mi, tempus est ut pretermictantur simulacra nostra” – frase que pode ser traduzida, aproximativamente, como: “Filho meu, é tempo de que nossos simulacros sejam postos de lado”. Simulacra, aí, pode ser traduzido também, como o faz Guglielmo Gorni, como “ficções corteses”, aludindo-se a ficções próprias da cultura dos trovadores originalmente occitânicos. Trata-se, em suma, para Dante, de trocar as imagens falsas (os simulacros) que povoavam a poesia imediatamente anterior – as imagens de amadas fictícias que não correspondiam a nenhuma experiência concreta, reduzindo-se muitas vezes a meras fórmulas retóricas – pela imagem verdadeira de Beatriz, imagem desdobrada simbolicamente, tanto na Vida nova quanto na Comédia, pela Verônica (“ymagine benedecta”): ou seja, pelo sudário em que estaria impresso o rosto de Cristo desde o Calvário, verdade tornada imagem, verdade gravada em sangue, como Dante concebe sua poesia depois da morte de Beatriz.

É interessante que, depois da Vida nova, Dante não se tenha posto imediatamente a escrever o poema que, de algum modo, anuncia no final daquele livro, poema em que pretendia tratar “mais dignamente” de Beatriz. Interessante e, sobretudo, sintomático do incessante “experimentalismo” dantesco, bem diagnosticado por Contini, experimentalismo que não respeita qualquer linearidade evolutiva, ainda que alguma evolução sempre haja (uma obra nova não invalida as anteriores, como poderia supor um evolucionismo ingênuo, mas põe em questão as obras contemporâneas que se mostram menos adequadas do que ela a seu momento histórico: nisto, Dante sempre foi genial, propondo, uma após outra, diferentes soluções para os problemas da literatura de seu tempo).

Donna petra ■ Depois da Vida nova, e antes da Comédia, por volta de 1296, Dante compôs quatro canções que, como já demonstraram com leituras cruzadas detalhadas os norte-americanos Robert M. Durling e Ronald L. Martinez e o italiano Corrado Bologna, foram fundamentais para a passagem da poesia da juventude àquela da maturidade, ao permitirem a Dante ensaiar uma maior variedade estilística do que aquela aprendida com seus amigos “fedeli d’Amore”: naquelas que são conhecidas como rimas “pedrosas” (“petrose”), a doçura stilnovista é posta à prova no confronto com uma aspereza ou mesmo crueldade de dicção inencontrada no Dante anterior, crueldade, ou “realismo”, de que Dante não poderia prescindir ao escrever, futuramente, o Inferno e o Purgatório, as duas primeiras partes – ou “cânticos” – da Comédia.

Para se alcançar essa crueldade, foi preciso colocar entre parênteses o amor por Beatriz, que justificara toda sua primeira poesia e voltaria a justificar a Comédia, e, inspirando-se não só formalmente no poetar dificultoso do trovador Arnaut Daniel (seu trobar clus), criar um novo simulacro feminino, a donna petra (dama pedra). De toda a produção poética de Dante, talvez sejam as “pedrosas” o único momento de deliberada incoincidência entre texto e vida: em alguma medida, é como se o autor se retraísse, levando consigo, caladas, suas experiências (seus amores, suas amizades, suas angústias, suas esperanças), para algum ponto neutro atrás do poema e deixasse este se armar, por si mesmo, como uma espécie de pura edificação de forma e imagem.

O lustro de 1298 a 1303 é de pouca atividade literária para Dante. Desde 1295, ele já estava envolvido na política de sua cidade natal, Florença, logo assumindo postos na administração comunal. De 1299 em diante, a cidade imerge numa profunda crise, devido à luta implacável entre as duas facções do partido Guelfo, a que Dante pertencia. Uma seqüência de banimentos de nomes importantes da vida política florentina só piora a situação.

Em 27 de janeiro de 1302, também Dante é expulso de Florença. A pena inicial é de dois anos de exílio, e uma multa de 5 mil florins deve ser paga, caso queira regressar. Em 10 de março, porém, a sentença de Dante, junto com as de outros 14 exilados, é mudada para pena de morte. Se retornasse a Florença, seria queimado vivo.

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