domingo, 27 de julho de 2008

Dante - Poemas autobiográficos


(continuação)

Vale notar que uma aposta assim imodesta no porvir não é novidade no percurso de Dante; pelo contrário, muitas vezes a aposta no futuro funciona como uma espécie de ponto de transição interno à própria obra, prenunciando e preparando seus desenvolvimentos vindouros. Era o que já se dava no final em aberto da Vida nova, em que Dante dizia que, depois de ter composto o último soneto do livro, aparecera-lhe uma “maravilhosa visão”, na qual vira “coisas que [lhe] fizeram propor não dizer mais” de sua amada Beatriz “até que pudesse mais dignamente tratar dela”.Sua intenção, que ele afi rmava buscar cumprir por meio do “estudo” (“E di venire a•cciò io studio quanto posso”: “Para consegui-lo, estudo quanto posso”, na tradução de Carlos Eduardo Soveral), era “dizer dela aquilo que nunca foi dito de nenhuma”. Esse dizer inédito – esse poetar sobre humano – estaria associado, ainda conforme registra Dante, à possibilidade de sua alma “ver a glória da sua dama, isto é, daquela bendita Beatriz” que se encontra na companhia de Deus (“la quale gloriosamente mira nella faccia di Colui ‘qui est per omnia secula benedictus’”).Não será errôneo supor que era a Comédia – com tudo que ela representaria como conquista de uma nova dignidade estilística e formal na expressão vernacular, e isto tanto na sua trajetória pessoal quanto na trajetória mais ampla das letras italianas – que Dante prefigurava neste último parágrafo da Vida nova. Mas é claro que essa prefiguração era ainda um tanto indefinida, pouco mais do que uma pura pulsão poética futurante, ou espécie de utopia textual, a descer, só depois, sobre o mundo.

Sombras do passado ■ A contraparte desse freqüente vínculo intempestivo da poesia de Dante com o futuro é seu vínculo não menos forte com o passado. Aliás, se Dante, pela boca de seu personagem Oderisi, insinua seu próprio nome como o daquele que já estava, no momento da redação da Comédia, superando Guido Guinizzelli e Guido Cavalcanti, é porque, em cantos anteriores da obra, já reclamara uma auctoritas inapelável. De forma difusa, mas não por isso menos eficaz, essa reivindicação de autoridade e autoria atravessa a obra; mas é no canto IV do Inferno que toma a forma de um conhecido emblema da húbris dantesca, de sua pretensão sem medidas, pretensão que seria absurda e mesmo um tanto ridícula se estivéssemos tratando de qualquer outro escritor: mas não no caso de Dante.

Naquele trecho do poema, Dante, guiado pelo poeta romano Virgílio, chega ao Limbo, círculo primeiro do Inferno onde se encontram as almas boas que viveram antes de Cristo e que, portanto, não foram batizadas. É ali a morada pós-morte do próprio Virgílio, que vivera entre 70 e 19 a.C. A dupla desloca-se pela região, até que Dante avista, apartado dos demais, um grupo de homens; pergunta a Virgílio quem são, mas, mal este começa a responder, ouve-se uma voz que amigavelmente saúda o precursor:

Honrai o altíssimo poeta;
a sua sombra, que partira, retorna”.

Quatro grandes sombras”, de aparência “nem triste nem alegre”, vêm em sua direção. Virgílio nomeia-os para Dante:

Com a espada na mão, olha o decano,
à frente qual senhor a conduzir.
É Homero, poeta soberano;
o outro Horácio sátiro que vem;
o outro Ovídio e o último Lucano”

(segundo a tradução de Vasco Graça Moura).

As quatro sombras são, pois, os espectros dos maiores poetas da Antigüidade, daqueles que formavam, aos olhos de Dante (e de sua época), a “bela escola”.Para se avaliar a desmesura com que Dante concebia o valor de sua própria obra, não se pode esquecer que não estamos, aqui, diante de um relato objetivo e desinteressado, mas de uma narrativa em primeira pessoa, na qual o próprio poeta figura-se como personagem principal. Conta nos Dante que, depois de terem conversado entre si por um tempo, Virgílio e os outros quatro autores voltaram-se a ele “com um aceno de saudação”, assim chamando-o à “sua fileira”, onde ele foi “sexto entre tanto siso” (sì ch’io fui sesto tra cotanto senno). Pela primeira vez na história, um escritor vernacular ousava representar-se como um igual dos grandes escritores da Antigüidade. A grandeza literária, que até então estava reservada aos clássicos gregos e latinos, era agora uma possibilidade para os que escreviam na língua de todos os dias.

O descomedimento de Dante, ao colocar-se lado a lado com os maiores nomes do passado, tem uma importância crítico-escritural que vai muito além de seu interesse individual; conforme argumentou implica um balanço da literatura clássica e da sua função na cultura ocidental; pela primeira vez na Europa, Dante mostra a consciência de percorrer uma cumeada da história, isto é, de interpretar o momento da passagem do medievo à idade moderna; este é o sentido profundo da mundialização do cânone que Dante opera no canto IV do Inferno, no qual é representada, além daquela latina, a literatura grega na pessoa de Homero, e aquela vulgar na pessoa do próprio Dante. A peculiaridade do discurso dantesco sobre o cânone – e nisto consiste a sua carga inovadora e revolucionária e o seu excesso mesmo em relação à operação agostiniana de conversão do mundo clássico-pagão naquele cristão – é a de fazer coincidir a reelaboração do cânone com a revisão dos gêneros literários que o Medievo havia rigidamente fixado na rota Vergilii; Dante recodifica o gênero épico não somente em perspectiva cristã, mas também e sobretudo na direção do romance, a partir do momento em que a recodificação dantesca vai na direção plurilingüística, histórica e autobiográfica, perspectivas estas fortemente conotativas do romance moderno, o que é percebido perfeitamente por Boccaccio e por Petrarca, para os quais o intertexto dantesco é o lugar do diálogo e do reúso. É neste lugar e neste espaço que se constroem o sistema da literatura italiana e o advento da poesia e da prosa italianas e européias”.Gianfranco Contini, que foi quem melhor percebeu a implicação mútua da antigüidade e da modernidade de Dante, o fato de que “a sua distância é ao mesmo tempo contraprova e garantia da sua proximidade vital”, bem o disse: “A impressão genuína do póstero, encontrando-se em Dante, não é de topar com um tenaz e bem conservado sobrevivente, mas de alcançar alguém que chegou antes dele”.
(E.S.)

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