sábado, 26 de julho de 2008

Dante - Poemas autobiográficos


(Retrato de Dante Alighieri (1495) do pintor florentino Sandro Botticelli)

[continuação]
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A partir de então, Dante erra pela Itália, de corte em corte, atuando como conselheiro político: os mais largos períodos são aqueles passados em Verona, junto ao príncipe Cangrande della Scala, de 1312 a 1318, e em Ravena, com Guido Novello da Polenta, de 1318 (ou 1319) a 1321 (nesta última cidade, graças à generosidade de Guido, Dante teria de novo a seu lado a mulher, os filhos e mesmo alguns de seus netos). Tudo isso não seria mais do que graves atribulações de um político da época, se este político não fosse Dante – e se não tivesse extraído precisamente do exílio a motivação maior de sua obra-prima, a Comédia.
Como já observou Joan M. Ferrante, o Inferno está tão cheio de conterrâneos de Dante que Florença parece ter-lhe servido como modelo para a representação do reino doloroso. Mas a acusação de Dante, quanto ao combate de todos contra todos, não se dirigia apenas aos florentinos:
“Ai serva Itália, que és da dor hotel,
nave a que arrais no temporal não resta,
não dona de províncias, mas bordel!
[...]
e agora em ti não andam sem ter guerra
os teus viventes e um e outro se morda
que o mesmo muro e o mesmo fosso encerra.
Mísera, busca as costas que te borda
o mar, e depois olha no teu seio
se alguma parte tua em paz acorda”
(tradução de Vasco Graça Moura).
Na Monarquia, tratado político que escreve por volta de 1318, paralelamente à redação dos cantos finais da Comédia, Dante propõe um império universal como meio de se superar as infelicidades nascidas da fragmentação do território não só italiano, mas europeu. A mesma idéia perpassa a Comédia, explícita, mas sobretudo implicitamente, como lastro dos juízos políticos que Dante emite ao longo de toda a obra.
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Com a Comédia, Dante consegue a proeza de ao mesmo tempo retornar ao nucleamento autobiográfico de sua obra, colocando-se desde os primeiros versos como o personagem que tudo vê e narra, e avançar em direção a um muito abrangente panorama alegórico da sociedade de sua época, que é projetada no plano atemporal dos três reinos ultramundanos sem, no entanto, perder sua historicidade.
E, na verdade, embora o tempo de Dante, ou seus mais recentes momentos antecessores, empreste ao poema alguns de seus personagens mais marcantes, não há limites para o aprofundamento no passado, que chega a Adão. No entanto, sejam egressos da Antigüidade ou do Medievo, os homens e mulheres com que Dante depara em sua peregrinação rumo a Beatriz e a Deus podem ser vistos, em certa proporção, como diversos aspectos de sua própria personalidade: estamos, afinal, dentro de sua imaginação, dentro de seus temores e de suas expectativas.
Por mais que os destinos de alguns desses personagens nos impressionem ou mesmo comovam (no tocante a isto, Francesca e Ulisses, condenados ao Inferno, mas merecedores da simpatia do autor, são insuperáveis), é a história de Dante que mais interessa. É o seu percurso até o reencontro com Beatriz e depois, com ela, até Deus que se coloca no centro da obra que Dante conseguirá concluir poucos meses antes de sua morte, em 1321.
contexto - Antes e depois de Dante
Para se compreender mais plenamente o significado e mensurar com justeza o valor da obra de Dante Alighieri, é preciso, antes de mais nada, perceber seus vínculos com o momento histórico em que foi produzida, sua participação naquele vasto movimento cultural que levou do período que conhecemos como Idade Média àquele que conhecemos como Renascença. Mas não menos importante é entender que a relação que a obra dantesca estabelece com a época e a cultura na qual aflorou não é meramente subordinada, derivativa: pelo contrário, esta obra é uma das principais instâncias de afirmação, confirmação, retificação e livre engendramento daquela cultura; em larga medida, tanto nossa imagem da Idade Média quanto que temos da Renascença são determinadas pela imaginação dantesca.
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Como bem disse Domenico de Robertis, “a cultura do tempo da Vida nova é antes de tudo aquela que a Vida nova define e representa” – e tal axioma vale não só para a Vida nova, que foi o primeiro livro de Dante, e também o primeiro livro da literatura italiana, como para todos os seus outros textos, cada um deles, mesmo quando inacabados (ou por isso mesmo), exemplares de um determinado aspecto daquela cultura em “crise de crescimento” (a expressão é do historiador Jacques Le Goff ).
Ainda De Robertis, em formulação exata: “A hipótese, retórica e didática, de um Dante sem a Comédia, ou de uma literatura ou de uma língua italiana sem Dante, é hipótese, simplesmente, de uma outra literatura e de uma outra língua”.
Aí se desenha, na lucidez do crítico, outra característica fundamental da arte de Dante, que podemos chamar de sua futuridade intrínseca, mas que, na verdade, seria mais precisamente definida como sua intempestividade radical, ou como seu anacronismo constitutivo e, sobretudo, operativo.
Para se entender a singularidade da posição dantesca é preciso traçar uma linha de diferenciação em relação a uma atitude mais generalizada frente aos “clássicos”.Diversas obras, não só literárias, são vistas pela posteridade como fundadoras de uma determinada tradição ou como decisivas em algum momento da configuração de um cânone.
No caso da obra de Dante, ocorre algo como uma inversão de perspectiva. É o próprio Dante que, antes de qualquer outro, vê a si mesmo como o autor originário do que seria a literatura italiana – e originário em sentido profundo: não necessariamente o primeiro em cronologia, ainda que em alguns aspectos o seja, mas aquele que lhe imprime o ponto de inflexão determinante, aquele que põe em questão o que já foi feito pelos predecessores e, a partir dessa reavaliação, lança as bases da literatura futura, ou pelo menos de uma de suas linhas de continuidade (trata-se aqui de uma “origem incompleta”, de uma “origem crítica”, para falarmos como Corrado Bologna, em Tradizioni e fortuna dei classici italiani).
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Aposta no futuro ■ Há uma passagem na Comédia em que a autoconfiança de Dante quanto a esta função originária da própria obra é declarada sem constrangimento algum: refiro-me ao canto XI do Purgatório, em que Dante narra seu encontro com o iluminador Oderisi da Gubbio. Ouvimos, com Dante, Oderisi lastimar a fugacidade da glória, que logo faz a fama de um artista declinar enquanto a de outro ascende; Oderisi compara, então, a superação de Cimabue por Giotto, na pintura, à de Guido Guinizzelli por Guido Cavalcanti, na poesia, assinalando por fim a possibilidade de que talvez já tenha surgido quem sobrepasse os dois Guidos – e quem seria tal campeão senão o próprio Dante?
“Acreditou Cimabue, na pintura,
manter sua posição, e agora Giotto se sobressai,
de modo que a fama daquele se tornou obscura.
Assim tirou um ao outro Guido
a glória da língua; e talvez tenha nascido
quem a um e outro expulsará do ninho”
(Purg. XI 94-99).

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