quinta-feira, 24 de julho de 2008

Dante - Poemas autobiográficos



A obra de Dante se constrói em torno de um núcleo autobiográfico, tendo sempre à frente um eu poético que coincide com o eu empírico do autor

por Eduardo Sterzi*

(BIBLIOTECA BRITÂNICA/LONDRES - Página do Paraíso, da Divina Comédia, em edição de 1440, com iluminuras da Escola italiana)

Difícil separar em Dante o mito pessoal, de um lado, e, de outro, a vida situada aquém da imaginação e da poesia. Afinal, toda sua obra se construiu em torno de um núcleo autobiográfico, tendo sempre à frente, mesmo nos momentos de mais fantástica idealização, um eu poético que se apresentava como coincidente com o eu empírico do autor. Ainda que, em menor ou maior grau, transfiguradas, foram as experiências efetivamente vividas por Dante que ele tomou como pontos de partida para seus textos, sejam estes líricos ou narrativos, ou mesmo tratadísticos. E sobre a realidade dessas experiências, especialmente em suas extremas transfigurações na Comédia, Dante sempre insistiu.
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Como disse Charles S. Singleton, a ficção da Comédia é de que ela não seja ficção – e o mesmo, podemos acrescentar, talvez valha para as demais obras de Dante, sobretudo para a Vida nova, em cuja introdução ele declara que apenas transcreverá o que está registrado no livro da sua memória. Há, ao longo de toda sua obra, uma postulação de verdade – teologicamente fundada, mas realizada sobretudo como humana adequação do texto à “vida” (palavra central em Dante, desde o título do primeiro livro) – em permanente tensão com a consciência de estar escrevendo ficção (fictio).
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Essa tensão é bem expressa pelo trecho da epístola ao príncipe Cangrande della Scala, seu protetor por ocasião do exílio em Verona, em que Dante tenta definir a “forma” da Comédia por meio de uma série proliferante, e em alguma medida contraditória, de adjetivos: “Forma sive modus tractandi est poeticus, fi ctivus, descriptivus, digressivus, transumptivus, et cum hoc diffi nitivus, divisivus, probativus, improbativus, et exemplorum positivus” (“A forma, ou modo de tratar, é poética, ficcional, descritiva, digressiva, transuntiva, e ao mesmo tempo definitiva, divisiva, probativa, improbativa e exemplificativa”).
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Amor unilateral ■ Na Vida nova, seu primeiro livro, no qual, por volta de 1294, reúne e comenta alguns dos sonetos e canções, e uma única balada, que escrevera a partir de 1283, Dante se apresenta como um poeta saindo da juventude e ainda sob o impacto da morte de sua amada, Beatriz. A história desse amor (a rigor, unilateral) é rememorada em ordem cronológica, com certa precisão, numerologicamente manipulada, para a passagem do tempo, mas com deliberada omissão de nomes de pessoas e lugares. Apenas Beatriz é nomeada, e ainda assim porque seu nome pode ser lido também como apelido: Beatriz é aquela que dá beatitude.
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A narrativa começa pelo primeiro encontro de Dante e Beatriz, quando ambos tinham nove anos (o número nove é recorrente na Vida nova, como cifra milagrosa). Dos anos precedentes da infância, nada é dito no livro e pouco se sabe: que Dante foi batizado (com o nome de “Durante”) em 26 de março de 1266; que nascera no ano anterior sob o signo de Gêmeos, o que permite a seu biógrafo, Giorgio Petrocchi, inferir, “com quase absoluta certeza”, que veio à luz em algum dia entre 14 de maio e 13 de junho, e “mais provavelmente lá pelo fim de maio”; que seu pai era Alighiero Alighieri (ou Alighiero II), e sua mãe, Bella, possivelmente da família Abati; que a mãe morreu jovem (em alguma data desconhecida entre 1270 e 1275), e Alighiero casou-se em segundas núpcias; que seu avô paterno, Bellincione, contou-lhe inúmeras histórias sobre Florença, as quais ele retomaria na Comédia; enfim, que passou a meninice na mesma casa em que nasceu, na paróquia de San Martino del Vescovo, com alguns breves intervalos em outras propriedades da família, em Camerata e San Miniato a Pagnolle.
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Mas deixemos de lado a vida que não é obra e voltemos à Vida nova: desde aquele encontro precoce com Beatriz, no nono ano de suas vidas, Dante já se sente dominado pelo Amor, que lhe aparecerá, em visões, como um deus (versão medieval do Eros grego). O segundo encontro digno de nota se dá nove anos depois do primeiro, e é só então que Beatriz dirige a Dante uma saudação: ao ouvir as palavras de sua dama pela primeira vez, Dante sente-se “como inebriado” e, assim, recolhe-se à solidão de seu quarto (“al solingo luogo d’una mia camera”), onde a primeira visão de Amor lhe acossa em meio ao sono, numa combinação inextricável de alegria e angústia, doçura e terror: o deus lhe aparece, em meio a uma nuvem cor de fogo, na figura de um senhor, “de pavoroso aspecto a quem a olhasse”, e que lhe diz, em latim, “Ego Dominus tuus” (“Eu sou o teu Senhor”); nos braços, carrega uma mulher nua, que dorme, apenas envolta num leve tecido cor de sangue; Dante descobre ser Beatriz essa mulher adormecida e vê que ela traz numa das mãos um coração ardente, como se lhe dissesse ser o dele; e ela, de súbito, despertada por Amor, e sob suas ordens, passa a comer do coração de Dante; finalmente, Amor, que até então mostrava-se alegre (embora temível), começa a chorar, e, como relembra Dante, “assim, chorando, recolhia a dama nos seus braços, parecendo-me que subia com ela para o céu” (na tradução de Carlos Eduardo Soveral).
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Angustiado, Dante desperta e, refletindo sobre o significado do que vira em sonho, resolve escrever um soneto em que registrasse o encontro onírico com o deus Amor e com Beatriz, para depois enviá-lo “a muitos que eram famosos trovadores naquele tempo”, pedindo-lhes que decifrem a visão.
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* Eduardo Sterzi é poeta e doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, com tese sobre Dante Alighieri e a origem lírica moderna. É autor dos livros Prosa (2001) e Por que ler Dante Alighieri (2008). Atualmente, realiza pós-doutorado na USP e prepara seu segundo livro de poemas, Aleijão.
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